A comovente tentativa de todos de retribuir a Gisella Amaral o tanto que fez por todos

Em outros países, figuras dedicadas ao próximo e à sua comunidade, como Gisella Amaral, têm as cerimônias de sua despedida devidamente documentadas. Lamento aquelas que se foram e não tiveram esses momentos finais registrados para a memória futura. É a história e são os costumes de um tempo, de certo grupo social e de suas personalidades representativas.

As despedidas de quem morre merecem rituais em todas as religiões. Como se cumprindo um protocolo de desapego, fazem-se, na Igreja Católica, velório, missa, discursos, coroas de flores, féretros, enterra-se ou crema-se. Depois virão as missas de sétimo dia, de 30º, de 1 ano, e de sempre que o falecido é lembrado. Assim, os que ficam vão se acostumando com a inexorabilidade da ausência, com a falta, a saudade. Os católicos acreditam que suas muitas orações e velas iluminam os caminhos celestiais de quem parte para a vida eterna. Os espiritualistas creem na reencarnação da alma, e no poder de se comunicar com ela. Mas o que concretamente ocorre é um processo de adaptação e conformidade diante da ausência do ser querido.

CAMÉLIAS BRANCAS

A missa de corpo presente de Gisella Amaral foi missa de estadista. O cardeal dom Orani Tempesta oficiou, cercado por vários padres, que ministraram a comunhão. Os membros da Ordem do Santo Sepulcro compareceram, reverentes, com suas imponentes capas pretas (as mulheres) e brancas (os homens). Os testemunhos de amigos foram incontáveis. A irmã caçula, Monica, veio do Chile, onde mora, e fez preleção comovente. Mais de uma dezena de jovens, filhas e netas de amigas de Gisella, as netas de Gisella fizeram a coleta de esmolas. As coroas de flores enviadas decoraram, enfileiradas, lado a lado, as laterais da Igreja de São José, superlotada. Algumas pessoas de pé. Gisella, serenamente imóvel, em seu esquife diante do altar, coberta de camélias brancas (a sua flor), maquiada com o batom claro que costumava usar, o risquinho com lápis fazendo os olhos ainda mais amendoados. Estava linda.

De preto, na primeira fila, Ricardo Amaral, que na hora da comunhão se levantou e ficou junto ao corpo, enquanto as pessoas que comungaram passavam por ele e o cumprimentavam. As três netas, o filho Bernardo e a nora Alessandra, junto com ele. No outro banco da primeira fila, Rick Amaral com a tia, Monica, o marido dela, as filhas e maridos.

BONDADE SILENCIOSA

Aqui e ali, ouvíamos comentários sobre boas ações de Gisella. O que mais me impressionou foi o do cabeleireiro panamenho Ricardo de la Rosa. Antes de sair, cochichou em meu ouvido: “Serei eternamente grato a ela. Quando iniciei a carreira no Brasil, a primeira vez em que precisei ir ao Panamá, e não tinha dinheiro, Gisella pagou a minha passagem”. Ao meu lado no banco, Tereza Nunes Ferreira escutou e comentou comigo: “São esses os depoimentos que valem”. Nada mais significativo do que a bondade silenciosa.

PRESENÇA SOCIAL

Os nomes sociais do Rio estavam todos lá. Nos dois sentidos, os da vida social e os da assistência social. Freiras, presidentes de entidades de benemerência, médicos vários, damas da caridade. Os antigos frequentadores da noite carioca, no reinado de Ricardo, e os novos da night, amigos de Rick Amaral, que foi companhia permanente da mãe em seu tratamento. Assim como foram inúmeras boas amigas, como Iná Arruda, Kiki Garavaglia, Tereza Seiler, Regina Ximenes, Ana Luiza Nogueira. Difícil citar nomes ou destacar personalidades, quando a pessoa em pauta é unanimemente amada. Saíram de casa para a missa, aquelas que a gente raramente vê. Deixaram os escritórios, por algumas horas, aqueles a quem é impraticável conseguir acesso. Todas as portas deram passagem aos que desejavam chorar a perda dramática dessa amiga rara.

ESTREPOLIAS DE GISELLA

Gisella foi a última a baixar armas. Na quarta-feira da semana passada, desobedecendo todas as orientações, “fugiu” do tratamento para ir ao enterro de Dayse Mene, casada com seu médico, Rômulo Mene. E ainda fez mais estrepolia, esticando numa missa noturna na Igreja Nossa Senhora da Paz. Na sexta-feira passada foi compulsoriamente internada no Pró-Cardíaco e retirada de circulação pelos médicos e pelo Ricardo. Já era a pneumonia, como um arremate de todos os outros sofrimentos da doença. O outro filho, Bernardo, em Miami, retornou a tempo das cerimônias de ontem.

GRANDE DAMA

E fica a pergunta: quem serão as grandes damas sociais sucessoras desta geração de Gisellas, Carmens, Lillys e outras que se vão?

Foram mais de cinco décadas de seu casamento com Ricardo Amaral, e Gisella aconteceu sempre. Não falo dos seus eventos, viagens e festas cintilantes, que levaram seu fascínio a Paris, Nova York, Miami, Lisboa, o mundo afora, ou da sua beleza e do seu estilo particular e elegante. Falo da grande dama e benfeitora que foi.

Gisella tinha a fé de que quando morremos renascemos para a vida eterna. Amém!

Esta página documenta a missa de ontem na São José, com fotos de Marcelo Borgongino.

As damas da Ordem do Santo Sepulcro, Eliana Moura e Vera Tostes

“Giselinha, meu Amor Eterno, Ricardo Amaral”

Cardeal dom Orani Tempesta, padres Omar, Jorge e Sérgio

A reverência do cavaleiro do Santo Sepulcro

Na primeira fila da esquerda, Ricardo Amaral e o filho, Bernardo. No cortejo, Iná Arruda, Alessandra Amaral com as três filhas e as amigas de Gisella. No banco da direita, Rick Amaral e sua tia, Monica, irmã de Gisella, com o marido.

Maitê Proença

.Rick e seu pai, Ricardo Amaral

Mariza e Jair Coser com Ricardo

Dom Orani cercado de padres e sacristães, com a oficial do Santo Sepulcro, Isis Penido, ao fundo

 

Para sempre, Gisella Amaral

 

Minha querida amiga, madrinha duas vezes, parceira, pessoa muito amada, Gisella Amaral sucumbiu ao câncer que há anos retornou e a corroía por dentro. Lutou bravamente até o último momento, sem se queixar, sem reclamar da vida, mantendo o humor e a altivez, e ajudando os outros. Há duas semanas, conseguiu a hospitalização no Hospital do Câncer, da menina Vitória, filha de uma ex-empregada de uma amiga. Gisella era assim. Não se preocupava consigo, se preocupava com o próximo. Quando mudei para o novo apartamento, fiz uma sala toda azul e branca, e dediquei a ela, “Sala Gisella Amaral”. Nós a inauguramos juntos, os dois casais, com risadas, champagne e lembranças. Gisella adorava o azul e branco na decoração. Seu apartamento de Miami era todo blue & white. Certa vez, como sua hóspede, ao acordar a encontrei toda azul, o caftan longo, também o laçarote nos cabelos, toda combinadinha, e passando aspirador na casa. Isso, depois de ter corrido na praia e remado sei lá quanto tempo. E eu achando que acordava cedo, depois de chegar tardíssimo na noite anterior, do tour pelos restaurantes e nightclubs, e Gisella ainda prosseguiu com Ricardo. Sua pilha era interminável.

Chegamos, eu e Francis, a marcar com Ricardo, secretamente, a inauguração da Sala Azul, e fizemos uma lista longa de amigos. Ela pensaria que era para celebrar meu aniversário, e quando chegasse a festa seria para ela. Combinamos menu, organizamos a casa, redigimos os convites, mas, por fim, Ricardo, triste, me disse que Gisella não teria condições, havia sido hospitalizada. Foi uma das tantas hospitalizações nesses últimos quatro ou cinco anos. Gisella tinha enorme confiança em seus médicos, na excelência do Sírio e Libanês e na eficiência do novo tratamento à base de imunoterapia. Nunca mudou o seu ritmo. Chegou a quase desmaiar no elevador do Hippo, porque insistia em prestigiar os eventos da casa, mesmo com a forte oposição de Ricardo. Ela era a sua luz. A luz de todas as casas que ele abria. A luz para todos nós, que tínhamos o privilégio de sua amizade.

Alguns a chamavam de “Santa Gisella” e, garanto, não era exagero. Talvez eu tenha sido uma das primeiras a saber da volta de seu câncer. Estávamos juntas no carro, voltando de Cabo Frio, e ela comentou sobre um carocinho que lhe apareceu na área das axilas, e poderia ser uma recidiva do câncer, mas que ela iria fazer o exame. E era. Para Gisella não bastam uma crônica ou um obituário. Sua importância como ser humano transcende palavras. Seus feitos são inúmeros. A preocupação permanente em fazer o bem. Criou a SorRio, para levantar recursos para as obras de caridade. Inventou o Arraial do Jockey Club, para arrecadar fundos para a Cúria. Saiu Brasil afora, fazendo palestras de prevenção do câncer de mama, usando seu exemplo pessoal, e estimulando as mulheres a se cuidarem.

Tratava a todos igualmente, ricos e pobres, jovens e velhos, brancos e pretos, humildes e arrogantes, pois nem estes últimos resistiam ao seu carisma de bondade, compreensão e tolerância humana. Frágil, muito magra e linda, com os cabelos presos em coques de grandes volumes, e que deixou ficarem grisalhos depois que voltaram a crescer, Gisella era sempre a grande presença. Tinha um probleminha com o horário. Como assumia múltiplas obrigações com todos, e não queria falhar com ninguém, estava sempre atropelada pela sua agenda “onipresente”. Sabíamos que ela seria a última a chegar no almoço, na festa, no jantar. E chegava com sorrisos, explicando de onde vinha, algum hospital ou algum asilo de velhos, ou o aniversário de uma amiga idosa. Não faltava aos que contavam com ela.

Outra coisa carinhosa era sua relação com as netas, e vice-versa. E assim como Gisella cuidava dos outros, as netinhas olhavam por ela. Como vi uma vez, no Shopping Leblon, quando a neta pequenininha insistia para Gisella comer alguma coisa, pois estava “fraquinha”, e Gisella pediu um sorvete. Era absolutamente frugal. O que preocupava a todos.

Seu automóvel, ela chamava de “escritório”. Tinha tudo que uma executiva precisa. E seu grande instrumento de trabalho era seu poderoso caderninho de telefones. Gisella era várias. Samaritana, relações públicas, executiva social, cumpridora dos protocolos todos e muito criativa. Tinha sempre uma ideia extraordinária para fazer o bem, e levava adiante.

Para dar conta de sua programação puxada, ela chegava a mudar de roupa a bordo do automóvel. Era de um preciosismo raro. Quando recebia em sua cobertura simpática do Leblon, “redecorava” o hall de entrada do prédio, com flores brancas degrau acima, e vestia os móveis e poltronas com tecido bege e branco e grandes laços. Ficava lindo.

Era duas vezes Amaral. De solteira e de casada. Ricardo Amaral vinha em primeiro lugar em sua vida, em todas as situações e em todos os momentos. Sua dedicação a ele era absoluta. Por isso sei como Ricardo precisará agora do conforto dos amigos. Mas não sei se terá forças para receber a torrente de carinhos que há de abater sobre ele.

Dias atrás, antes de partir para mais uma fase do tratamento em São Paulo, ela ligou para algumas amigas. Com quem não conseguiu falar, deixou mensagem gravada. O tom era de despedida. Gisella foi internada na sexta-feira no Pró Cardíaco, no Rio. Ela teve a oportunidade de se despedir de todos e escolheu padre Túlio para lhe dar a extrema unção. O velório começou às 10 da manhã de hoje, na Igreja de São José, foi seguido de uma missa, pelo cardeal dom Orani Tempesta, ajudado por vários outros padres, e em seguida houve a cremação, íntima, no Caju.

Perder Gisella não estava em nossos planos. Ela era imortal em sua fé.

 

Um dia de Coréia do Norte para a imprensa em Brasília

A jornalista Monica Bérgamo, postou esta tarde no site da Folha de São Paulo uma descrição dos surpreendentes novos procedimentos com a imprensa numa posse presidencial na República Brasileira, como foram os da posse do presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. Vale a transcrição.

Hildegard Angel


UM DIA DE CÃO

Mônica Bergamo 

É uma posse diferenciada e todos têm que entender isso.

Com essas palavras, a assessora do Palácio do Planalto que acompanhava jornalistas num ônibus rumo ao Congresso Nacional, na manhã desta terça (1º), procurava acalmar veteranos da profissão (esta colunista entre eles) que não conseguiam, digamos, entender os novos tempos — e o tratamento reservado à imprensa na posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Foi, de fato, algo jamais visto depois da redemocratização do país, em que a estreia de um novo governo eleito era sempre uma festa acompanhada de perto, e com quase total liberdade de locomoção, pelos profissionais da imprensa.

O sufoco começou dias antes, no credenciamento.

Os jornalistas foram informados de que não poderiam ter acesso livre, por exemplo, ao salão nobre do Palácio do Planalto, onde o presidente sobe a rampa, dá posse aos seus ministros e recebe cumprimentos de autoridades internacionais.

Na posse de Lula, em 2003, repórteres chegavam a se aglomerar em torno dele e de Fernando Henrique Cardoso, misturando-se entre a equipe recém-empossada e a que deixava o governo.

Um dos repórteres lembrava, no ônibus, que chegou a subir no elevador do Planalto com Lula, furando um esquema nada rigoroso de segurança.

A colunista chegou a entrar em salas privadas com o então vice-presidente dos EUA Joe Biden na posse de Dilma Rousseff, em 2014.

Desta vez, tudo seria diferente. 

Apenas um jornalista de cada veículo poderia entrar no palácio, e com acesso restrito às autoridades.

Os outros ficariam do lado de fora, na portaria ou num corredor aberto no meio da população. 

E a assessoria alertava: neste local, era preciso evitar movimentos bruscos. Fotógrafos não deveriam erguer suas máquinas. Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper [atirador de elite] a abater o “alvo”.

Uma jornalista voltou apavorada para a redação. 

Avisou à chefia que preferia não cobrir a posse. Não queria morrer. Foi convencida do contrário.

Os organizadores da cerimônia também distribuíram orientações por escrito à imprensa: os jornalistas credenciados deveriam chegar ao CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil), no dia 1º, às 7 horas da manhã.

Como é que é? 

Era isso mesmo: embora a posse no Congresso estivesse marcada para as 15 horas, os jornalistas teriam que se concentrar desde cedo, embarcar nos ônibus às 8 horas, chegar no Congresso pouco depois e esperar, sem fazer nada, por mais de seis horas, para ver Bolsonaro entrar no parlamento.

Era preciso levar lanche pois não haveria comida. 

Tudo precisava ser embalado em sacos de plástico transparente.

“Garrafas não são permitidas. Haverá água potável disponível nas áreas de imprensa”, dizia o comunicado.

Os veículos providenciaram kits de sobrevivência para seus profissionais. 

No caso da Folha, bolachas Club Social, biscoitos Bis, castanhas de caju, barrinhas de cereal, gomas de mascar, um sanduíche de queijo e salame e suco de caixinha.

Na terça (1º), logo cedo, os jornalistas, seguindo as regras, chegaram cedo ao CCBB.

Foram todos divididos em grupos, em cercadinhos com grades de ferro: os que iriam para o Congresso sairiam primeiro, depois os do Palácio do Planalto e, por fim, os do Itamaraty.

“Pessoal, vocês vão em 13 ônibus. Às 17 horas, nós traremos vocês de volta”, gritava um assessor que se apresentou como Tiago.

E quem quisesse ficar mais?

“Pessoal, [os seguranças] não vão deixar vocês passarem [nas ruas]. O direito de ir e vir dos jornalistas tá assim!”.

Os repórteres caíram na risada.

Apesar da situação, considerada um tanto surreal, havia motivo para risos. 

Um deles era a proibição de levar maçã inteira na merenda. Só picada, em pedacinhos.

“Razões de segurança: acham que alguém pode jogar uma delas na cabeça do Bolsonaro. E maçã machuca”, explicava um dos profissionais.

Em fila, todos começaram a embarcar nos ônibus.

“Bem-vindos à rodoviária do CCBB”, dizia o assessor que iria em um dos veículos.

Os alertas eram muitos. 

“Não tentem subir na Esplanada [dos Ministérios, avenida que leva à Praça dos Três Poderes]. Não tentem passar de uma área à outra. E, mais importante: não tentem pular uma cerca. Não façam isso!”

“A gente tem que avisar. Porque depois alguém toma um tiro…”, completava outra assessora.

“O que nós viramos?”, questionava um veterano jornalista. 

“Fizemos tudo o que já fizemos para terminar aqui?”

Pouco depois das 8 horas, o comboio de ônibus sai até o Congresso, onde novas surpresas nos esperavam. Ao chegar no parlamento, os repórteres passaram por detectores de metais.

E foram levados ao salão verde da Câmara dos Deputados, na entrada do plenário.

“É surreal!”, reagiu um jornalista ao ver a cena: todas as cadeiras e poltronas do local haviam sido retiradas. Não havia onde sentar. Os profissionais tinham que se acomodar no chão.

Eram centenas de jornalistas, mas só havia um banheiro disponível.

Alguns se dirigiram ao setor do cafezinho. 

Um segurança logo orientou as copeiras: “Não é para servir nada à imprensa”.

Os profissionais foram convidados a se retirar do local.

Teriam que ficar confinados no salão, separados por um cordão da passarela com tapete vermelho por onde passariam as autoridades. 

“É preciso um pouco de dignidade!”, reclamava um repórter.

Um deles conseguiu um banquinho para se sentar. E logo começaram as brincadeiras: era preciso fazer rodízio para que todos pudessem descansar um pouco.

Na mesma situação no Itamaraty, correspondentes internacionais chegaram a se retirar do prédio.

Jornalistas com larga experiência em coberturas de governo prognosticavam: essa postura do governo durará pouco. Até a primeira crise.

Mônica Bergamo
Jornalista e colunista. 

FSP 1.1.2019


Agora, é observar os dias que virão. Fato é que, diante do quadro, os correspondentes da China e da França escalados para a cobertura desistiram da tarefa e se retiraram. Desconfia-se que essas novas determinações do trato com a imprensa tenham sido inspiradas nos procedimentos da Coréia do Norte…

H.A.

CARTA PARA MINHA MÃE

Hildegard Angel / Jornal do Brasil  / 28 de Outubro de 2018

Com minha mãe, Zuzu Angel, que cantou suas alegrias e sua tragédia em roupas singelas e coloridas (Foto de Mauricio Hora)

Minha mãe amada. Sua coragem e seu espírito de luta nos fazem muita falta nesta hora, neste dia. Imagino como a senhora estaria empenhada, batendo de porta em porta, distribuindo santinhos e mensagens, abordando as pessoas nas ruas ou onde quer que estivessem, para repedir a ladainha de seu sofrimento e de nossa tragédia, nos anos da ditadura no Brasil.

Sei o quanto a senhora prezava a democracia, a liberdade de se expressar, de ir, vir e se reunir. De pensar e de estudar. De criar. Tudo que nos foi negado por aqueles anos de escuridão, que também nos negaram as vidas de Stuart, seu filho, meu irmão, de Sônia, sua nora, minha cunhada, e sua própria vida.

Nada mais disso, no entanto, é lembrado e lamentado por grande parte dos brasileiros. Os que não viveram e muitos dos que viveram aquele período assustador. Tenebroso. Nosso país adorado, e que a senhora tanto louvava em suas roupas, se desumanizou. As pessoas não valorizam e prezam a vida como antes. Elas assistem à espetacularização da violência real, pelos noticiários da TV, como assistem aos filmes com psicopatas na programação das noites de segunda-feira.

Tudo passou a ser trivial em nosso país. Decepar, enforcar, asfixiar, estuprar, toda e qualquer forma de violência, as mais perversas, se tornaram trivialidades.

O pensamento solidário, aquele de olhar a todos como irmãos, que Jesus Cristo trouxe à Terra, se extinguiu, também e principalmente, entre os próprios cristãos. De nada adiantam os apelos quase diários do Papa contra o fascismo. Não o escutam. E os que ouvem sua voz, o criticam. Ser caridoso e piedoso é visto como fraqueza e impostura. Cada um recria o cristianismo de acordo com as conveniências pessoais. Até os religiosos de batina.

Olho em minha volta e não vejo pessoas. Não são humanos os que se deixam dominar pelo desprezo ao próximo. Os que aplaudem e uivam ao chamado do ódio, da perversão, da indignidade.

Como se o grupo de torturadores e assassinos daquele tempo nefasto tivesse se replicado e multiplicado em milhões de brasileiros. Todos sedentos por sangue, cada um de arma na mão. Com um fuzil AR-15 pra chamar de seu.

Ligo a televisão e vejo, chocada, um tresloucado invadir uma sinagoga em Pittsburgh e fuzilar inocentes. O atirador gritou “todos os judeus devem morrer!”. Assim como agora gritam “30 mil devem morrer”, e que o estado brasileiro não deve gastar com os pobres, pois eles não servem pra nada, só pra votar.

O massacre foi no país do armamento liberado, os Estados Unidos da América, onde as crianças levam armas aos colégios e dizimam seus colegas de turma. Modismo bárbaro, que vemos, aos poucos, introduzido em nosso Brasil, ainda com pequena frequência, ainda sem as armas liberadas. E serão até para as crianças, esse é o plano.

Tínhamos uns vizinhos de prédio, praticantes de tiro exímios, campeões, que por descuido ou distração deixaram uma arma ao alcance do filho pequeno. E vimos o dia em que chegou a caminhonete fúnebre para levar o corpo do amiguinho, assassinado por disparo involuntário da criança. A família fechou-se em luto e grande sofrimento. Não era esse o seu objetivo, mas foi essa a sua consequência.

Minha mãe, meu desolamento e minha aflição são tão grandes que me fogem a coerência e o raciocínio. Ah, se você estivesse aqui, para se vestir de preto e sair por aí, clamando seu infortúnio, exibindo o desespero da mãe que perde um filho e nada pode fazer. Nem reagir, nem denunciar, nem implorar por seu corpo. Pelo menos isso, nós conquistamos nesses últimos 30 anos, e às custas das mortes de tantos nos 21 anos que os precederam.

Naquele tempo em que sequer se podia chorar os mortos, você foi se juntar a eles, por desobedecer a “ordem de comando” do silêncio geral. Morta por chorar, por implorar e por fazer seu grito repercutir até ser escutado no estrangeiro.

É esse tempo que querem de volta. Movidos pelo temor da violência, votam para institucionalizar essa mesma violência, dando a ela poder de matar a todos, indiscriminadamente, sem processo, sem controle. Com medalha de honra espetada na farda.

Mãe, não tenho a sua capacidade. Tenho procurado fazer o que me é possível, escrever, informar, debater. E sempre chorando muito, pressentindo a tragédia que está prestes a se abater sobre todos nós.

Fui ontem à gruta de São Judas Tadeu. Hoje é aniversário do santo. Acendi uma vela, não pelos meus doentes, pelo Brasil. Ele está mais precisado. Por favor, reze por ele. Quem sabe aí onde está suas preces sejam mais escutadas do que as nossas. Do que as do Papa Francisco.

Te amo, mãe,

Hilde

 

Nomes mais influentes da França fazem apelo pela nossa democracia

Essa onda pega. Está pegando. Jamais se viu numa eleição brasileira tantos movimentos, depoimentos, manifestos com o objetivo comum de combater o perigo fascista. Veículos internacionais de mídia, de esquerda, direita, centro; personalidades notáveis, brasileiras e estrangeiras, saem de sua zona de conforto, ou de sua conveniente neutralidade, para se colocar com firmeza. São pequenos, fracos, minorias, artistas, intelectuais, jornalistas, cientistas, que espontaneamente criaram grupos no what’sapp e páginas na internet e saíram de suas casas para bradar “Ele não!”.

Uma emergente resistência brasileira, que, nesses dias finais do embate, reage ao medo e espana a apatia atenta ao clamor vindo lá de fora.

Acabo de receber, e transmito a vocês, o manifesto “Apelo aos brasileiros pela democracia”, assinado por políticos influentes de todos os matizes, artistas, escritores, arquitetos, professores, a síntese do pensamento da França.   A iniciativa foi de uma brasileira de sucesso na França, várias vezes premiada, a arquiteta Elizabeth de Portzamparc, casada com um arquiteto igualmente importante, Christian de Portzamparc, que também aderiu ao manifesto.

APELO AOS BRASILEIROS PELA DEMOCRACIA    

Informados pela imprensa brasileira e internacional, estamos acompanhando preocupados o risco real da perda das liberdades fundamentais no Brasil representado pela eventual vitória do candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, no segundo turno das eleições presidenciais no país. 

Motivados pelos laços que unem os dois países, gostaríamos de manifestar a nossa imensa preocupação, nos dirigindo em particular aos eleitores brasileiros indecisos, para que se posicionem a favor da democracia no Brasil.

O candidato de extrema direita, ex-capitão do exército, denigre as forças armadas ao elogiar publicamente a prática da tortura, assim como a eliminação física de oponentes políticos (1). Sua trajetória e seu discurso político traduzem um desprezo aos direitos humanos, aos princípios básicos da democracia e ao debate eleitoral, do qual ele se recusa a participar. Sua campanha, elaborada por Steve Bannon, ex-conselheiro de Donald Trump, é baseada em declarações provocadoras, notícias falsas, e “tweets” postados em redes sociais (2). 

O ex-militar sustenta publicamente um discurso homofóbico, sexista e racista em relação aos negros e aos índios, incitando à violência física e política contra as minorias.

Desde que começou esse discurso do ódio, ele já tem sido traduzido de forma concreta: na primeira semana que seguiu à votação já foram registrados em todo o País cerca de 50 casos de agressões físicas de caráter político, sexista ou homofóbico realizadas por alguns de seus seguidores (2), e um assassinato em Salvador (3).

A história do século XX nos ensinou muito quanto às consequências da ruptura do pacto democrático: a onda de ódio, a perseguição às minorias e o uso da violência. Se essa ruptura seduziu parte das populações em tempos de crise econômica e política, foi uma ação irreversível, com consequências humanas desastrosas, sem, contudo, solucionar os problemas sociais e econômicos como preconizava. 

Tal opção política poderá ter consequências nefastas não apenas para a democracia brasileira, mas também para o continente latino-americano e para as relações com a comunidade internacional – notadamente com a França. 

Nossa preocupação diz respeito ainda aos discursos desse candidato sobre o meio ambiente. Caso seja eleito, ele afirma extinguir o Ministério do Meio Ambiente e retirar o Brasil dos acordos internacionais sobre o clima, incluindo a COP 21 (4). Seu apoio declarado aos lobbies do agronegócio nos permite entrever, caso ele seja eleito, uma aceleração sem precedentes do extermínio dos índios, da destruição da floresta amazônica e do meio ambiente no Brasil, que teriam um impacto global inegável sobre clima mundial, com consequências negativas nas negociações comerciais internacionais. 

O candidato extremista representa a negação de valores básicos, como a tolerância e a proteção em relação às minorias e diferenças, às liberdades individuais, à preservação do meio ambiente e do nosso planeta. Ele renega as conquistas democráticas que foram duramente conquistadas após a ditadura militar.

Ao contrário, Fernando Haddad, o outro candidato que concorre à presidência no segundo turno, tem mostrado em diversas ocasiões que representa o campo democrático. O Partido dos Trabalhadores, ao qual é afiliado, cometeu faltas graves, mas segue firme em seu compromisso com a democracia.

Brasileiros, brasileiras, não se isolem! Não abandonem os seus valores. O medo não justifica tudo. Queremos poder continuar ao seu lado. A França e o mundo precisam de um Brasil democrático. Agora mais do que nunca.

Brasileiros, vocês são um grande povo que se emancipou da colonização e que aboliu a escravidão. Vocês sofreram uma feroz ditadura militar da qual se libertaram. Rejeitem a tentação de uma cólera justa nas suas motivações, porém cega nas suas consequências. Caro povo-irmão, filhos de uma grande nação que deve permanecer independente: nós, fiéis amigos do Brasil, admiradores de sua cultura, apelamos à sua lucidez.

Até agora assinaram:

Elizabeth de Portzamparc, arquiteta, socióloga, Presidenta de 2Portzamparc  

Michel Wieviorka, Sociólogo, Presidente da Fondation Maison des sciences de l’Homme

Edgar Morin, Sociólogo

Antoine Hennion, Sociólogo

Alain Touraine, Sociólogo

Amy Dahan, Diretora de Pesquisas do CNRS (Centro Nacional francês de Pesquisa Científica) 

Jean-Louis Cohen, Professor de História da Arquitetura, Institute of Fine Arts, New York University, Professor do Collège de France

Christian de Portzamparc, Arquiteto, urbanista, Pritzker Prize & Praemium Imperiale

 Jean Nouvel, Arquiteto, Pritzker Prize & Praemium Imperiale

Dominique Perrault, Arquiteto, Praemium Imperiale

Patrick Bouchain, Arquiteto

Yannick Jadot, Deputado Europeu, ambientalista

Vincent Capo-Canellas, Senador

Edith Cresson, Antiga Pimeira-Ministra francesa

Jack Lang, Presidente do Instituto do Mondo árabe, ex Ministro

Yves Dauge, Antigo Senador, c da ACCR / Pierre Mansat, Político francês

Thierry Mandon, Antigo secretário do Estado Francês responsável do Ensino Superior e da Pesquisa

Alain Dinin, Presidente-Diretor Geral da Nexity 

Laurent Dumas, Presidente-Diretor Geral da Emmerige 

Jean-Philippe Adam, Diretor Geral do Crédit Agricole Immobilier

Robert Lion, Presidente de diversas associações e ex-Diretor Geral da Caisse des Dépôts et Consignations

Daniel Chabod, Presidente-Diretor Geral da Sacicap de l’Anjou  

Bruno Mantovani, Director do Conservatório Nacional Superior de música e de dança de Paris / Philippe Sollers, Escritor

Laure Adler, Jornalista

Benoit Jacquot, Diretor de cinema 

Catherine Deneuve, Atriz 

Roberto Cabot, Artista

Gérard Fromanger, Pintor

Miguel Chevalier, artista

Christian Boltanski, Artista

(1) https://www.revistaforum.com.br/jair-bolsonaro-erro-da-ditadura-foi-torturar-e-nao-matar/

(2) https://m.oglobo.globo.com/mundo/estamos-indo-para-brasil-diz-diretor-da-cambridge-analytica-22510961

(3) https://apublica.org/2018/10/apoiadores-de-bolsonaro-realizaram-pelo-menos-50-ataques-em-todo-o-pais/

(4) https://www.lemonde.fr/ameriques/article/2018/10/11/au-bresil-le-triomphe-attendu-de-bolsonaro-dechaine-les-violences-homophobes_5367697_3222.html

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-perde-recurso-e-condenado-pagar-150-mil-fundo-de-defesa-lgbt-22045884

https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-e-condenado-por-comentario-racista-contra-quilombolas-leia-a-integra

(5) http://www.diretodaciencia.com/2018/10/11/plano-de-bolsonaro-poe-meio-ambiente-em-perigo-dizem-servidores-do-ibama-e-icmbio/

ou

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marceloleite/2018/10/a-amazonia-no-bolso.shtml?fbclid=IwAR2MhXoOMtpKNg0NkTW1svIDZEF7V8ddp-FJIxGYiYriY79w0-NGJ33omUI?loggedpaywall

Carta aberta à presidente do Supremo Tribunal Federal

Coluna Hildegard Angel – JORNAL DO BRASIL- www.jb.com.br – 

Carta aberta à presidente do Supremo Tribunal Federal

22/09/2018

Presidente Cármen Lúcia,

Pretendia fazer esse pleito pessoalmente, por ocasião da visita a Vossa Excelência do sr. Adolpho Perez Esquivel, na pequena comissão de representantes da sociedade brasileira. Mas isso não foi possível. Resta-me faze-lo por esta carta, animada por suas demonstrações de solidariedade à luta e à memória de minha mãe, já feitas publicamente e diretamente a mim. As mulheres mineiras, como são ambas vocês, têm tradição em nossa História de bravura e compaixão. Assim foram, na Inconfidência, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo e, na Revolução de 1930, Tiburtina Alves, que, em suas épocas, na defesa de causa maior, desafiaram o medo e o senso comum. No momento, a causa extrema é a da nossa Democracia. Faz-nos aflição nos sentirmos na iminência de perde-la, abalada pela disseminação de um ódio que contamina e torna violenta a nossa sociedade, pela primeira vez na História republicana dividida radicalmente. Amigos rompem relação, parentes não se falam, vizinhos deixam de se cumprimentar. Não houve precedentes em nossa sociedade, a não ser nas ditaduras, quando o temor de retaliações e estigmas levava pessoas a evitarem umas às outras.

Felizmente, lá se vão mais de trinta anos do último período de exceção. Contudo, os ares da excepcionalidade voltam a nos sufocar, confundir e separar. Urge que a Constituição Brasileira volte a ser cumprida em sua integralidade o quanto antes, o tempo atropela o desenrolar dos fatos, e as consequências são imprevisíveis. Peço a Vossa Excelência e aos demais membros da Corte que ouçam as vozes, não as que lhes são mais próximas, mas as das ruas. Que atentem para o clamor popular, que se faz revolta pelo descrédito que agora inspiram ao povo as nossas instituições. Vemos manifestações em lugares públicos, marchas, movimentos, até greves de fome ocorrerem, na esperança de lhes atrair a atenção. De lhes merecerem um olhar ou até mesmo a preocupação.

Por favor, sra. Ministra, Deus lhe deu esta missão importante de apaziguar a Nação com seus atos, conduzindo este momento da História. Sei que o Supremo de nosso país tem sido capaz de atos de coragem que desafiam o próprio tempo. Como o do saudoso ministro Adauto Lúcio Cardoso, outro mineiro. Primo-irmão de minha mãe, em família divergiam no pensamento político, mas eram convergentes na causa comum das liberdades democráticas.

Ministra Carmen Lúcia, lhe rogo que paute as Ações Declaratórias de Constitucionalidade, que colocam em questão o entendimento firmado pela Corte de autorizar o cumprimento de pena após condenação em segunda instância. Esta é a reivindicação que temos percebido no clamor das ruas, levando até sete militantes de movimentos populares a completarem hoje 22 dias de greve de fome no Distrito Federal.

Vamos apascentar os corações deste país, antes que tenhamos que verter lágrimas por esse sacrifício em seu momento extremo, que parece estar próximo.

Sei de sua bravura, peço-lhe, também, a compaixão.

Muito respeitosamente,

Hildegard Angel

Projeto Novo Brasil segue firme em seu propósito de voltar ao tempo colonial

DEZOITO entidades representativas de diversos segmentos da indústria audiovisual do Brasil lançaram um manifesto de surpresa e preocupação com a notícia veiculada na sexta-feira sobre a morte do Departamento de Economia da Cultura do BNDES, comunicada aos funcionários pelo presidente do banco, sr. Dyogo Oliveira… ELAS ESTRANHAM que a presidência do banco, ao extinguir o departamento de cultura, demonstre desconhecer que a empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers coloca a indústria do entretenimento e lazer cultural entre as três maiores cifras de negócios do mundo – quase US$ 2 trilhões… LEMBRAM QUE a cultura brasileira, mesmo nesse quadro gravíssimo de crise econômica, é um dos setores mais dinâmicos da economia nacional, está em franca expansão, gera quase 1 milhão de empregos e sua participação no PIB é de 1,2% a 2,6%. Sem esquecer sua dimensão simbólica… OS SIGNATÁRIOS concluem, expressando sua confiança de que o BNDES esclarecerá essa notícia e que o Departamento da Economia da Cultura do banco continuará promovendo o desenvolvimento da indústria… EM SUA RESPOSTA, o sr. Dyogo Oliveira só fez acentuar a impressão de desinformação sobre esses fatos, confundindo política de Patrimônio Histórico com política de financiamento à Industria Criativa Cultural… O QUE ISSO SIGNIFICA? Que o BNDES está apenas sendo coerente com o Projeto Novo Brasil – vamos chamá-lo assim – que desmonta o país e aniquila qualquer possibilidade de desenvolvimento intelectual do povo brasileiro, e faz estagnar toda iniciativa que promova a inclusão social… UMA ANIQUILAÇÃO de terra arrasada, um retrocesso, não ao tempo do Governo Getúlio Vargas, com essa “releitura” grosseira de suas CLT, mas à própria Abolição da Escravatura, pois torna os pobres, negros na maioria, reféns do capital e totalmente escravizados pela ausência de instrumentos que promovam alguma justiça social… ESSE PROCESSO vem se desenvolvendo desde o início deste governo, quando foi anunciada a extinção do Ministério da Cultura, ato que só foi revertido após forte posicionamento da classe artística brasileira, em uníssono, ocupando instalações do ministério e exigindo respeito para o setor. Assim, o MinC foi mantido, aos barrancos e trancos, com o atual orçamento pífio… CONCOMITANTE A ISSO, lançaram, logo nas semanas pós impeachment, e aprovaram, uma reforma do ensino básico, em que inicialmente só eram obrigatórios o português e a matemática!… OS ESTUDANTES REAGIRAM, ocuparam escolas públicas, e a nova grade curricular passou a incluir inglês (antes podia-se escolher entre ele e o idioma espanhol, agora, não mais), filosofia, sociologia, artes e educação física, com o foco maior de preparar para o ensino técnico… SEM DISCUTIR com a sociedade, com um conteúdo didático prejudicado, para a revolta e o protesto da sociedade civil, pais, alunos e professores, que pediram a rejeição da Medida Provisória, enquanto antigos ministros da Educação previram, com essa reforma, um grande risco de se ampliarem as desigualdades de oportunidades… DEPOIS, VEIO o corte drástico de recursos para toda e qualquer pesquisa científica. Veio a campanha contra as universidades públicas, reduzindo-se drasticamente seus recursos, e até criminalizando reitores… AGORA, O BNDES, tido c omo “a mãe da cultura brasileira”, tradicional impulsionador da nossa indústria criativa, sai de campo e deixa o setor desguarnecido de patrocínios e financiamentos… FAZ REFLETIR que o que se pretende são novas gerações de brasileiros com nível raso de informação, sem interesses culturais abrangentes, reduzidas à perspectiva de um futuro ensino técnico, quando muito… NADA A ESTRANHAR. Apenas estão sendo sinceros em seus objetivos de desconstruir o Brasil, pois é sabido que “a cultura constrói uma Nação”. Sem cultura, sem ciência e com uma instrução incipiente, o que esperar do Brasil?… ELEMENTAR: UM PAÍS com poucas cabeças pensantes, país vassalo, sem deter patentes, 100% dependente do conhecimento importado… UM BRASIL consumidor da produção cultural estrangeira. Com o setor de audiovisual totalmente dominado por produções em inglês (daí a serventia de falar o idioma?)… E VOLTANDO AO BNDES, colocar na mesma “caixinha” as suas políticas para a preservação do Patrimônio Cultural e as de uma pujante indústria criativa é, perdoe-me dizer, falta de cultura. Ou ojeriza a ela…

 

 

 

“Se não cumprir a determinação do Comitê dos Direitos da ONU, O Brasil será relegado à condição de pária internacional”

Hildegard Angel – Jornal do Brasil – 18/08/2018

ASSIM SE EXPRESSOU ontem o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil por nove anos e meio, servindo a três presidentes, embaixador Celso Amorim. A afirmação foi endossada pelo diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministro dos
Direitos Humanos de Fernando Henrique Cardoso, professor de Ciências Políticas da USP, durante a coletiva realizada ontem, com os advogados do ex-presidente, Valeska Teixeira e Cristiano Zanin… O MAIS FORTE foi quando o ex-ministro explicou que,
caso não se cumpra a resolução do Comitê De Direitos Humanos da ONU, o país passará a ser um “pária internacional”, significando que, “progressivamente, sua voz vai parar de ser ouvida, o Brasil poderá deixar de ser chamado para as reuniões da ONU, não votar em decisões e seus pleitos não serem atendidos”. Enfim, um marginal em todas as esferas, diplomática, política, comercial etc. Bem como as nossas próximas eleições serão questionadas internacionalmente, não  sendo reconhecidas…

TUDO ISSO dito com serenidade e firmeza. Foi uma coletiva espetacular, emocionante. Os repórteres da mídia grande, transtornados, insistiam e argumentavam, esperando ouvir o que seus editores querem escutar: que o
tratado não é uma Decisão, é uma Recomendação. Não ouviram… O QUE A ONU emitiu foi uma Determinação, uma virada de mesa nas eleições brasileiras… O BRASIL SUBSCREVEU esse Tratado Internacional vinculante a todos os nossos poderes
e órgãos públicos, aceitou sua jurisdição, e ele foi internalizado, cumprindo-se todos os trâmites do nosso Legislativo. Com o decreto aprovado, tornou-se lei no Brasil… DADO O conhecimento da resolução da ONU ao Itamaraty, não cabe ao Brasil outra coisa senão cumpri-la, envolvendo todos os poderes e órgãos estatais…

EIS QUE UMA repórter lê nota distribuída pelo nosso Ministério das Relações Exteriores, minimizando a importância da resolução. Seria apenas uma “Recomendação”… TANTO AMORIM quanto Pinheiro ficam estupefatos. Celso tinha
nas mãos a notícia publicada ontem pelo New York Times, e a lê: “Lula do Brasil deve ter seus direitos políticos, diz o Comitê de Direitos Humanos da ONU. Ele determinou ao governo brasileiro que permita que Lula, que está na prisão, exerça plenamente
seus direitos políticos”… SOBRE A NOTA do Itamaraty, Amorim, que foi duas vezes nossos embaixador em Genebra, comenta: “Ela é lamentável, constrangedora, porque demonstra que nossos diplomatas em Genebra desconhecem o tratado, não leram! A nota do Itamaraty é um sofisma. A resolução não recomenda ao Judiciário decidir. É para fazer cumprir. Não pode ocorrer dano ao presidente Lula, impedindo que ele concorra à eleição”… REZA O DOCUMENTO da ONU que Lula deve cumprir amplamente a agenda de candidato, comparecer aos debates na TV, dar entrevistas à imprensa, participar de comícios, encontrar- se e se reunir com os membros de seu partido…

DE ACORDO com os diplomatas, não há a hipótese do descumprimento da decisão. Quando se descumpre um tratado desses, está se negando princípios básicos do Direito Internacional. “Pactos têm que ser cumpridos”, disse o ex-Chanceler, “senão é lei da Selva, é fazer como os Talibãs”… DA COLETIVA, participou via Skype o advogado britânico Geoffrey Robertson, dos maiores especialistas no mundo em Direitos Humanos, e que acompanha esse processo desde julho de 2016 . Estava entusiasmado: “É um grande dia para a Democracia. Uma decisão muito importante. É
muito raro o Comitê expedir uma ordem antes do caso ser finalizado. A ONU só usou desse recurso para pessoas torturadas ou executadas. Na democracia, é intolerável que se negue a presunção de inocência”… É ASSERTIVO: “A Procuradora Geral
tem que expedir amanhã a decisão permitindo a Lula concorrer na mesma posição de seus oponentes, e não ser desqualificado. E também ser eleito”, disse… FINALIZOU BONITO: “A Democracia é frágil. Quando ela está em perigo, a ONU e a comunidade internacional se preocupam. Este é um exemplo muito importante e esta é uma decisão bem-vinda por todos. Para o bom resultado para o povo brasileiro e para a governança
democrática, o Brasil deverá aceitar suas obrigações internacionais”…

DESDE JULHO DE 2016, a Comissão de Direitos Humanos da ONU recebe relatórios dos advogados de Lula sobre as ocorrências de seu processo, passo a passo. Assim,
acompanharam sua prisão coercitiva, as gravações divulgadas de conversas privadas, inclusive a conversa com a presidenta Dilma, o levantamento do sigilo de conversas de Lula com seus advogados e – o que mais impressionou ao Comitê e aos juristas estrangeiros – a sucessão de fatos do último dia 8 de julho em Curitiba, que levaram ao não cumprimento do Habeas Corpus concedido… DECLAROU O JURISTA Pedro Serrano ao blog Tijolaço: “Segundo a nossa Constituição, tratados internacionais sobre direitos fundamentais e políticos que o Brasil assina aqui são lei acima das leis comuns. É uma decisão contundente”… PARA O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, “mesmo que a grande imprensa insista e repita que essa decisão da ONU não tem valor, ela tem sim”… ESSE ATO, explicaram, nada tem a ver com Ficha Limpa. Tem a ver com Direitos Humanos. A avaliação da ONU é de que, na falta um julgamento justo a Lula, ele tem por isso que participar das eleições…

ESTA NÃO é a primeira Decisão tomada pela ONU quanto ao assunto. No dia 22 maio passado, o mesmo comitê enviou outra, em que fez saber ao Brasil, “sem prejuízo da decisão”, que será incompatível nós realizarmos qualquer ação que frustre os seus comunicados referentes ao processo, que ela acompanha desde julho de 2016… NA OCASIÃO, RECOMENDOU “que não seja emitida qualquer nota que possa dar a entender que a determinação do comitê é frívola ou fútil”… EXATAMENTE a nota que, ontem, o nosso Ministério das Relações Exteriores distribuiu… QUANTO AO julgamento do mérito das violações praticadas ao longo do processo contra/Lula, estas ainda estão sendo examinadas pelo Comitê. Aguardemos uma terceira Decisão. O preço da Democracia é a eterna vigilância…

Um ronco surdo começa a incomodar os ouvidos que escutam…

De Hildegard Angel

Jornal do Brasil  12/08/2018

HOJE, SEGUNDO informes da Marinha do Brasil, teremos uma grande ressaca na orla do Rio, com ventos alcançando 2,5 metros de altura. Para os banhistas, a grande maioria dos cariocas, uma péssima notícia. Para os surfistas, minoria, ouro sobre azul. Talvez a maioria não se aperceba, mas o Brasil vive monumental ressaca institucional, que pode ser do gosto de uma minoria de ungidos pelos privilégios, mas que afeta em cheio a população do país. Uma calamidade nacional! Ela prospera sob os narizes dos brasileiros, sem que eles se apercebam. Ou não querem perceber. Urge que seja debelada o quanto antes, pois compromete nosso presente e o futuro dos nossos… Trata-se do colapso da Democracia brasileira, que vem ocorrendo desde o pré-impeachment…

NO CONGRESSO, COM a impensável e imoral “pauta bomba” do ex-deputado Eduardo Cunha, que, na liderança de uma Câmara mercenária, cumpriu o papel de inviabilizar e fragilizar um governo no início de seu segundo mandato. No Judiciário, em conjunto com o Ministério Público Federal e a Polícia Federal, na condução de uma operação que parece ter lado. O que nos preocupa é a análise que se faz, repetidamente, de uma Justiça sem venda nos olhos, de um martelo da Lei com cor partidária, que escolhe a quem condena e a quem sequer investiga ou julga, em que o dolo é mero detalhe. O terceiro vértice desse “Triângulo das Bermudas” em que submerge nossa Democracia é a mídia corporativa, formada por algumas empresas familiares, no domínio da opinião pública segundo seus caprichos pessoais e os interesses do mercado. Uma abdução sistemática, empenho notável e continuado para manter sob seu controle as mentes da nação, impingindo verdades embaladas em versões fantasiosas, contaminando o pensamento, promovendo a desarmonia nacional, criminalizando a vida republicana de modo perverso e inconsequente…

SABEMOS O CUSTO de uma ruptura constitucional, como a ocorrida por ocasião deste último golpe de Estado, que defenestrou uma legítima representante do povo por atos de gestão apenas questionáveis, mas não criminosos, que os governantes anteriores também praticaram. Bastou afastá-la para sacralizarem as antes demoníacas “pedaladas”, tornando-as legais. Não se preocuparam sequer em disfarçar. O objetivo principal ainda estava por ser alcançado: inviabilizar o retorno do ex-presidente Lula ao Palácio do Planalto, o que seriam favas contadas dada a admiração que lhe demonstra a vasta maioria do povo, e estão aí as pesquisas para confirmar…

ESSE AMOR de que Lula desfruta não advém de notícias manipuladas ou de propaganda elogiosa massiva pelos grandes grupos de comunicação. Este domínio da opinião pública quem o tem é quem não está ao lado das causas sociais, da soberania, da grande causa do povo. Assim, chegamos ao clímax, ao ápice do desespero, quando, a três dias do prazo final de inscrição das chapas, Lula da Silva se mantém “prisioneiro político”, segundo a grande mídia internacional, as instituições de direitos humanos mais respeitadas do planeta, e centenas de juristas ilustres de todo o mundo, preocupados com a atuação de nosso Judiciário nessa questão…
Movimentos, abaixo assinados, manifestos, flash mobs e eventos vários se multiplicam às dezenas, centenas, aos milhares, pedindo pela legalidade democrática em nosso país. Porém, como se sob o efeito de algum gás paralisante, nossos poderes permanecem impassíveis, surdos ao povo a que deveriam servir, às leis que juraram obedecer, aos princípios éticos básicos profissionais…

QUE PODER será este que faz congelarem diante dos fatos aqueles homens e mulheres, tantos deles antes alvo de nossa confiança e de nossas admirações, e que agora se comportam como vassalos? Que poder maior? O dito “Império”? O mercado? O preconceito de classe? Ou todos eles juntos?… Aos desesperados, só restam
medidas extremas. Em Brasília, desde o último dia 31/7, sete militantes da Via Campesina, do Levante Popular da Juventude e da Central dos Movimentos Populares estão em greve de fome, cobrando justiça ao Supremo Tribunal Federal. Já hoiuve hospitalizações, mas os militantes da fome se recusam a interromper o jejum, enquanto não alcançarem seu objetivo. São os “bonzos brasileiros” do Terceiro Milênio, a exemplo daqueles de Saigon nos anos 60, submetendo-se a uma morte talvez mais sofrida, porque mais lenta do que pelo fogo, em que a obstinação confirma seu heroísmo, o martírio e o compromisso com nosso Brasil. Entre eles, um frei recorre à própria fome, “para não ter mais que enterrar crianças que morreram de fome”. O sacerdote franciscano fala de sua experiência nos anos anteriores à Bolsa Família, quando morrer por falta de comida era corriqueiro no Nordeste. Esse tempo ruim, que havia passado, agora retorna à região, como um vaticínio…

MAS VOCÊS veem as televisões falarem sobre isso? A mídia se manifesta? Temos sete bonzos brasileiros em uma autoimolação pela fome, em Brasília, e o noticiário os ignora. O noticiário brasileiro, pois o do resto do mundo se manifesta escandalizado. Quem acompanha a mídia estrangeira sabe do que falo. Desde ontem, às 6h30 da manhã, mais de cinco mil trabalhadores rurais de vários movimentos organizados, dos quais o mais conhecido é o MST, saíram em marcha de três pontos diferentes rumo a Brasília, onde chegarão no dia 15, para exigir do Tribunal Superior Eleitoral a inscrição da chapa de Lula, permitindo ao povo votar em quem acredita. A Marcha Nacional Lula Livre só merece da mídia hegemônica o silêncio, o que também é um escândalo. Esta parte da cidadania do Brasil não existe para ela, é invisível, não há interesse em mostrar. São três colunas, cada uma com mais de 1.500 defensores dessa causa, que percorrerão de 50 a 90 km, a partir de Formosa, Luziânia e Engenho das Lages.
“Estamos passando por um momento crítico em que há uma prisão arbitrária do presidente Lula, há mais de 120 dias. Estamos imersos em uma crise política e nos aproximando das eleições presidenciais e a Marcha é um momento para dialogar com a população brasileira sobre o que está acontecendo no nosso país”. Quem fala não é um analista político, é um camponês Sem Terra do Paraná, Ceres Hadich…

O QUE EU quero dizer, meus amigos, é que a tendência, ao longo desse percurso de cidade em cidade, é de a peregrinação engrossar. É de que essas pessoas de pés e mãos calejados, ao passarem com suas bandeiras tremulando, os rostos marcados pela luta cotidiana, impressionem a muitos mais, movidos pela fé de que a união de muitas vozes poderá romper a blindagem dos ouvidos de Brasília. À medida em que cresce essa onda indignada, crescem as desavenças sociais, aumenta o rancor da cidadania anônima, aquela que tem a apoiá-la apenas a força de sua convicção… E isso não é bom para a sociedade como um todo. Os potes de mágoa transbordam. A paciência não é eterna. Um ronco surdo e crescente de insatisfação começa a incomodar os ouvidos de quem escuta…

O povo quer saber dos ministros do STE: vale tudo?

POBRE DO PAÍS cujos candidatos, na grande maioria, parecem ser despreparados para o compromisso que pretendem abraçar, neste momento de extrema crise que o país atravessa… PORÉM, OS QUE os apresentam nas entrevistas à população são muito piores… A LEI ELEITORAL não permite a antecipação de campanhas políticas, mas as entrevistas que estão sendo feitas não são nada mais do que campanhas individuais, realizadas pelos segmentos da comunicação com o aparente foco de prejudicar possíveis candidatos, que ainda podem ser candidatos. Tais entrevistadores têm o ostensivo costume de rotular como criminosos e de antecipar julgamentos, induzir decisões judiciais, incitar a povo contra candidatos, que podem inclusive estar sofrendo injustiças, por não terem ainda sido concluídos todos os trânsitos legais de seus processos… FICA ATÉ desrespeitoso com o Judiciário. Pois aparentemente tais jornalistas querem interferir em seu próximo julgamento, dando a impressão de que entendem mais de leis do que os juízes togados…  É TRISTE TESTEMUNHAR. Faz pensar que os inquiridores estejam ali preocupados, não com a causa da democracia, mas com a manutenção do privilégio de serem empregados por aqueles que sempre ganharam com as ditaduras… CAUSA AINDA ESPÉCIE que as duas plataformas da comunicação, que, no momento,  se apresentam para dar voz – a seu jeito – aos candidatos,  sejam claramente as duas mais comprometidas com a oposição aos candidatos ausentes, que ainda podem ter a Justiça a seu favor… PIOR, NESSA “antecipação de campanha”, conferem a “seus candidatos” tempos bem superiores ao tempo com que a Justiça do país os contempla oficialmente no Horário Eleitoral determinado… O POVO QUER saber dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral: isso pode? É assim mesmo? Vale tudo?… (Jornal do Brasil)