Partiu Mirtia Gallotti, com sua risada musical

Hildegard Angel

Mirtia Gallotti era sistemática. Como sempre fazia, depois de acordar e tomar o café foi tomar seu banho matinal e lavar a cabeça. Às 11,30 horas foi encontrada morta no chuveiro. Mirtia era muito cuidadosa consigo mesma, sua saúde. Ela tinha pressão convergente, quando a pressão máxima se encontra com a mínima, o que é sempre um grande risco, e tomava regularmente seus remédios para a pressão. Já tem algum tempo, Mirtia se tornou medrosa, não saía mais à noite, não dirigia mais automóvel. E estava muito impressionada com a pandemia.

O programa social obrigatório e preferido de Mirtia Gallotti eram os cineminhas de sábado em casa dos amigos João Maurício e Maria Alice Araújo Pinho, com quem Mirtia conversava todos os dias ao telefone, e era What’sApp toda hora. Nossos últimos encontros sociais foram no cineminha dos Araújo Pinho e em jantares em minha casa.

Desde que enviuvou de Antonio Gallotti, Mirtia nunca mais se casou. Ou melhor, nunca mais quis se casar. Candidatos não faltaram. Como o banqueiro Jorge Piano que, quando enviuvou, tentou lhe fazer a corte, mas ela não o estimulou. Ela sempre foi muito seletiva. Muito religiosa, ia à missa de São Paulo Apóstolo regularmente. Em Paris, não abria mão das missas na Rue du Bac. E não posso esquecer seu carinho, sempre nos trazendo de lá um vidrinho de água benta. Era muito bonita. A imagem mais bela que guardo de Mirtia é correndo à beira mar, em Miami Beach, toda cinza, training e camiseta, com o rabo de cavalo louro cinza embalado pelo vento. Cinematográfica.

A outra imagem que guardo de Mirtia foi de quando a conheci, como Mirtia Kegler, levada por Tony Gallotti a um jantar em casa da grande amiga dele, Consuelo Pereira de Almeida, que veio a se tornar também grande amiga dela. Gallotti era um dos mais poderosos empresários brasileiros, carreira iniciada como advogado da empresa canadense Brazilian Traction, Light and Power Company,  responsável pela geração e a distribuição da energia elétrica em Rioe São Paulo e também controlava os serviços de gás, telefone e bondes no Rio e em São Paulo, bem como todos os serviços de utilidade pública em Santos. Possuía, além disso, diversas subsidiárias para a instalação de serviços de luz, força, telefone e gás nas principais cidades do país. De advogado a representante do grupo no Brasil, e depois presidente da Light, e chefe executivo do Grupo Brascan Brasil, Administração e Investimentos, organização cujos investimentos eram estimados em dois bilhões de dólares.

A Mirtia Kegler era completamente diferente da quase sóbria e contida Mirtia Gallotti. Iluminada, esfuziante, risada rouca e musical, ela encantou naquela noite em que Gallotti a introduziu em seu círculo de amigos. Estavam também presentes, além de nós, Roberto e Yara Andrade, Roberto e Stella Campos. O que deu margem a uma mesa de anedotas impagáveis, com Tony e os Robertos brilhando com seus repertórios de piadas, que sabiam muito bem contar.

Antonio Gallotti voltava à plenitude de sua exuberância, depois da conturbada separação de Miriam Atalla, sua segunda mulher. A primeira chamava-se Minda (Arminda). Iguais no prenome, totalmente diferentes nas personalidades.

Mirtia tinha dois grandes amores. O filho, advogado Luciano Saldanha, casado com a jornalista Maria Beltrão, e a neta, Ana Beatriz, do primeiro casamento de Luciano. Hoje, Maria Beltrão não apresentou o Estúdio I, e com fortes motivos para isso. De certo, o jornalismo estava sempre presente na vida de Mirtia, cujo primeiro marido, Saldanha Coelho, foi um importante jornalista político brasileiro, vereador, deputado, sempre ligado ao PTB.

Não haverá velório nem enterro, devido à pandemia. Repousa em paz, querida Mirtia.

Mirtia Gallotti e Maria Alice de Araujo Pinho, grandes amigas

Mirtia Gallotti convidava, e estava em dia de astral particularmente ótimo: aquele sorrisão.

A capricorniana Mirtia

A cura (das obras públicas) está no melhor preço

Francis Bogossian*

Houve um tempo no Brasil em que as obras eram executadas com acompanhamento técnico.

Isso foi lá pelos idos dos anos 60, quando entrei no mercado da engenharia, e ainda se
estudava e se realizava projeto executivo. Nas últimas décadas, essa prática foi caindo em desuso e se passou a licitar com menos estudos, sem projeto executivo, algumas vezes até sem projeto básico e muitas vezes sem anteprojeto.

Cabe lembrar que, até os anos 80, a boa oferta do mercado e os preços realistas permitiam que os executores das obras empreendessem estudos complementares, revisassem os projetos apresentados às licitações e acompanhassem passo a passo sua execução, num verdadeiro ‘pente fino’ para eliminar eventuais deficiências dos projetos licitados.

O cenário seguinte, aquele em que atualmente estamos, com as oportunidades reduzidas e as condições econômicas desfavoráveis, é o das licitações com carência cada vez maior de dados, em que as únicas alternativas que se apresentam são ganhar os serviços com preços incertos ou declinar deles. A segunda hipótese significa ter que demitir os técnicos, desmobilizando equipes constituídas com grande esforço.

Mas não só os aspectos técnicos são determinantes em uma obra de engenharia, a questão econômica também prepondera na escolha da melhor solução.
Numa realidade em que a escassez de recursos acontece em âmbitos federal, estadual e municipal, a aplicação correta das verbas disponíveis deveria ser objetivo primordial e constante dos órgãos públicos, o que não ocorre.

É baixo o custo de uma solução que deixe a desejar tecnicamente. Porém, adotá-la não compensa os altos riscos econômicos, sociais e humanos que podem dela advir. Por isso, a necessidade de uma avaliação criteriosa dos projetistas e dos contratantes – em grande parte o poder público – já que a abrangência do colapso de uma obra é infinitamente superior a qualquer custo material.

Sim, a busca pela solução de menor custo deve sempre ser a meta do projetista, mas tendo como base os aspectos técnicos e de segurança. Este sempre foi um princípio básico da engenharia. Para definir uma solução de melhor relação custo e benefício, na fase de pré-projeto, são fundamentais a engenharia geotécnica e a geologia. E o que vemos muitas vezes acontecer?

Para compensar a falta de dados geotécnicos, que envolvem principalmente razões
econômicas e às vezes prejuízos do cronograma, os projetistas costumam recorrer ao
superdimensionamento das obras. Muito mais adequado do que isso seria a utilização de novas tecnologias. E este é o grande desafio que lanço aqui às universidades, com apoio das empresas de engenharia: que incentivem as pesquisas, única forma de se adquirir conhecimentos e utilizar experiências práticas para chegar a soluções inovadoras e de menor custo. O Brasil tem uma grande tradição de soluções inovadoras, e esse talento é um ativo nacional que deve ser estimulado e explorado.

Na Academia Nacional de Engenharia, que tenho a honra de presidir, estamos priorizando três diretrizes, em nossos comitês de Inovação e de Ensino:

  • Atualizar o currículo do ensino de Engenharia, abraçando a Inovação, unindo, tanto quem ensina quanto quem emprega o engenheiro;
  • Instar junto aos ministérios de Ciência, Tecnologia e Inovação, Educação e
    Infraestrutura, visando agilizar e acelerar posturas urgentes de inovação tecnológica no setor da Engenharia, o qual atua na medicina (equipamentos), na construção, na manutenção, na indústria, na segurança etc.;
  • Instar junto ao poder público na luta pelo melhor preço, que propicia, ao próprio
    empresário, condições financeiras para inovar nos serviços e obras que executa.

Como último fator relevante para a excelência das obras, é de se destacar um
acompanhamento diligente pós-construção. Via de regra, as obras são duplamente esquecidas após sua inauguração; pelo construtor, que não é contratado para isso, e pelo contratante, que teria a obrigação de zelar por elas.

Mas o consumidor não se esquece de estar sendo preterido, na ausência dessa obrigatória manutenção. O Sistema de Gestão da Qualidade ISO-9001:2005 preconiza que todas as obras sejam entregues ao proprietário com um Manual do Usuário. É este o instrumento definidor de responsabilidades para que as obras sejam acompanhadas sem haver seu  sucateamento. O documento fala na importância da qualidade para evitar o retrabalho, e na gestão de resíduos para garantir a proteção ambiental. Isso tem obrigado muitas empresas a investirem os próprios recursos em consultorias de gestão, segurança, responsabilidade, saúde ocupacional, para estar aptas a licitar para contratantes como o Sistema Petrobras, por exemplo.

A inversão de responsabilidades vai ao ponto de empresas de engenharia oferecerem abatimento nos preços do custo básico de seus projetos, para ganhar obras públicas. E vão sobrevivendo à base de empréstimos e rolagem da dívida. É um círculo vicioso que precisa ser interrompido. Pois o vício corrói, não só o bolso dos construtores como a qualidade do que é contratado.

As alegações dos contratantes de que a maioria das obras ocorre dentro de padrões
satisfatórios de desempenho, qualidade e prazos não nos impedem de questionar: Como fica a responsabilidade social de governos e empresas com obras apenas satisfatórias, cumprindo o mínimo das exigências legais? E a sociedade, como fica no atendimento de sua satisfação? Não nos cabe perguntar como fica a engenharia brasileira, diante de obras apenas satisfatórias, com equipamentos sucateados, canibalizados e superados pela falta de recursos ante os preços de custo praticados, e até mesmo de bem abaixo do custo. Não colocamos a pergunta por que, lamentavelmente, sabemos a resposta.

Um nascimento para ser saudável exige atenção contínua, exames de pré-natal e um parto bem feito. Uma obra de construção bem sucedida necessita acompanhamento diligente desde a concepção, diagnósticos precisos, testes e controle de riscos. Os Estudos e Projetos na engenharia são como os cuidados indispensáveis a um paciente na medicina, que devem ser preventivos e até o fim da vida. Tal qual a saúde dos Homens, a saúde das obras precisa ser constantemente monitorada e cuidada durante toda a sua vida útil.

Por maiores a pressa e/ou razões políticas, as obras públicas jamais devem ser iniciadas sem projetos executivos. Não se justifica o que vemos acontecer pelo país afora: uma pandemia de obras públicas contaminadas pela ausência de projetos executivos e estudos prévios.

A cura contra esse mal é o melhor preço, aquele que propicia qualidade e segurança.

O chamado “menor preço” costuma ter um custo alto para o Estado e para as nossas vidas. É como a panaceia da cloroquina, cujo único resultado constatado é a satisfação do imediatismo de vendedores e políticos.

*Francis Bogossian preside a
Academia Nacional de Engenharia,
tendo sido Presidente do Clube de
Engenharia (2009/15), do CREA-RJ
(março a outubro de 2020) e
Professor da UFRJ e da UVA

O episódio Greenwald-Biden-The Intercept ou quando o jornalismo se assume partidário

Hildegard Angel

Não podemos ignorar que Glenn Greenwald já tinha Joe Biden atravessado na garganta desde sua perseguição a Edward Snowden. Não é de surpreender que o jornalista, nesse momento crucial para Biden, tenha aproveitado a oportunidade para lhe dar “o troco”. Esse é o aspecto das fraquezas humanas, que envolve o episódio Greenwald-Biden-The Intercept. O que não invalida o aspecto ético profissional da atitude de Glenn, ao romper com The Intercept ante a quebra da cláusula de um contrato, que lhe garantia total liberdade para seus textos e colocações. Não se trata de uma questão de “edição”, mas de “censura”, sejamos sinceros sobre isso.

E não é de estranhar que os trumpistas se aproveitem do calcanhar de Aquiles do oponente – e que calcanhar! – com a Fox News abrindo estúdio, câmeras e microfones para Greenwald expor a Tucker Carlson as suas razões. A Fox está jogando seu jogo aberto de sempre. O peão estranho nesse tabuleiro é Glenn, que não viu problema em ir falar no “campo inimigo”. Assim como a imprensa de esquerda, tradicionalmente combativa, muda de postura e recolhe as garras, como um cão domesticado e sem faro, passando ao largo dos e-mails nos três laptops de Hunter Biden deixados para conserto numa oficina em Delaware.

Nessa reta final de campanha, qualquer descuido pode significar catástrofe tão grande quanto foi o vazamento dos “e-mails hackeados”, que pode ter custado a Hillary Clinton sua eleição em 2016. O que também expôs a conspiração contra Bernie Sanders pelo Democratic National Committee – DNC, desfazendo ilusões (se havia) de que nessa contenda existam éticos e bonzinhos.

Sim, os vazamentos dos e-mails de Hillary eram de interesse público e deveriam ter sido publicados de qualquer maneira. A política é uma disputa permanente entre a corrupção e a transparência. Ganha a democracia, quando a transparência é vencedora. A imprensa está agora confrontada com o mesmo impasse. Por mais que possa prejudicar Biden, o artigo de Glenn Greenwald também é de interesse público, e esse fato precisa ser esclarecido. Deixar a tampa sobre o lixo nem sempre evita o mau cheiro.

O The Intercept sabe disso, e não costuma se acanhar diante de fatos controversos. Seu acanhamento é que é o fato novo.

A liberdade jornalística está posta em questão, quando um site como o The Intercept, considerado um baluarte da liberdade de opinião, trai as próprias convicções ou – vamos ser mais realistas – trai a imagem da própria marca.

O Intercept não é imparcial, Glenn também não é. No atual quadro, ninguém parece ser. Ao rasgar a fantasia de imparcialidade partidária, assumindo um lado, os órgãos da mídia, ao mesmo tempo em que se tornam mais transparentes, decretam o fim do jornalismo ideal, sem preconceitos, no qual, mesmo se dele houvesse apenas o verniz, muitos ainda acreditavam.

Glenn Greenwald, o marido , David Miranda, e os filhos

VISÃO DO INFERNO

Pintura de Portinari

Hildegard Angel
O fogo nos consome. Queimam os sabiás, as palmeiras de Bilac, as onças do Pantanal, a maçaranduba, o cedro, os jatobás de nossa Floresta Amazônica. O hospital público deficitário arde em chamas e respira por aparelhos, num esforço desesperado para, mesmo sem fôlego, salvar nossas vidas secas. O incêndio não é desastre, é projeto. A Pátria é o butim que eles golpeiam, esquartejam, repartem.
Como hienas famintas, se atiram sobre nossas carnes. Um quer o Banco Central pra dividir com seus cupinchas. Outro quer dar o sistema de saúde pros comerciantes da dor, nem que para isso se redija nova Constituição. O senador pleiteia o aquífero pra sua multinacional vender em garrafas plásticas. O Pré-sal já se foi, junto com nossas esperanças equilibristas…
Enquanto isso, o “imperador piromaníaco”, assim tão bem definido por seu ex-porta voz, toca sua harpa em desafino com a vida, e “o coral dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”.
Quando partirem, nos deixarão a carcaça atirada na caatinga, como no quadro de Portinari. E nós, brasileiros, condenados a sermos eternos retirantes, passeando nossa desgraça ante os olhos distantes de robustos espectadores estrangeiros, que assistem pela TV ao holocausto do Terceiro Mundo, como seriado da Netflix.

Consternação na elite carioca, com a morte do armador Fragoso Pires, dois meses após seu filho, Rafael, ambos pela Covid-19

José Carlos Fragoso Pires, entre o neto e o filho, ambos José Carlos, e ao lado do consogro Milton Lódi, todos turfistas
Minha homenagem a José Carlos Fragoso Pires, aqui com seu neto, José Carlos, e seu filho, José Carlos. Três gerações de Fragoso Pires apaixonados pelo turfe. Hoje nos deixou o José Carlos avô, dois meses após a partida de seu filho, Rafael. Ambos infectados com a Covid-19, ambos com doenças pre-existentes. Foram dos primeiros a serem contaminados no RJ, por ocasião do almoço de noivado da filha de Rafael e neta de José Carlos, Alessandra, em casa dos pais do noivo, Maritza e Alberto de Orleans e Bragança. Na época, falou-se em 40 contaminados no evento, logo nos primeiros dias de março. Nossa saudosa Mirna Bandeira de Mello também contraiu o coronavírus naquele almoço. Um trauma forte para a sociedade carioca, e sobretudo para os noivos, que adiaram o casamento para ano que vem.
Rafael Fragoso Pires e esposa, Márcia Muller, cuja união foi notícia aqui neste blog há 10 anos. 
Ao lado de Ângela, José Carlos era o “castelão” da famosa cobertura triplex, onde moraram Gilda e Carlos Guinle, pais de Jorginho, no prédio construído por eles na praia do Flamengo, e que agora viralizou na internet, em linda reportagem sobre o imóvel deslumbrante, posto à venda. Fragoso Pires foi um grande armador e um notável presidente do Jockey Club Brasileiro. Era um prazer conversar com ele, que gostava de falar sobre cultura, tradições, história do Rio de Janeiro e de sua sociedade. Discreto e elegante. Formou com Ângela um casal representativo, não só no aspecto social, como também na benemerência e nos eventos culturais. Significou uma época de um Estado do Rio de Janeiro empreendedor, ambicioso e alçando altos voos, com sua vida social fervilhando com industriais, banqueiros e políticos. Um Rio com força, poder e beleza. Fragoso Pires viveu como um grand seigneur, em seu palácio suspenso sobre a vista mais linda do mundo: a da Baía da Guanabara. Só posso dizer que o Céu, com José Carlos e Rafael, está muito mais elegante.
O armador José Carlos Fragoso Pires e Angela 

ARREPENDIMENTO

O Blog transcreve a crônica “ARREPENDIMENTO”, de Ricardo Cravo Albin, escritor, pesquisador da MPB, presidente do Pen Club do Brasil e do Instituto Cravo Albin

Por Ricardo Cravo Albin

“O arrependimento é o acordar tardio da consciência. Breve é a loucura, longo será o arrependimento.” (Friedrich Schiller).

Guardo no melhor escaninho da memória dos bancos escolares do Internato do Colégio Pedro II (Ah, o casarão amarelo de São Cristóvão inaugurado pelo próprio  Imperador) uma frase de Euryalo Cannabrava, o melhor catedrático da matéria Filosofia que nós, os  então adolescentes daquele final dos anos 50,  poderíamos ter acolhido nos nossos verdes corações.

Mestre Euryalo pontificava, ao repetir como um mantra – “O arrependimento será sempre o acordar tardio da consciência”, que ele atribuía com orgulho ao alemão Schiller.

Isso era comum, em especial quando comentávamos em aula erros e acertos do tema preferencial daqueles tempos de temores, a construção de Brasília e os desequilíbrios que a inflação crescente parecia fazer desabar sobre o vertiginoso País de nossas esperanças, de nossas decepções, umas e outras temperadas pela fé no futuro, que deveria estar a bater às portas dos jovens que éramos, os estudantes. Mas que até hoje nunca chegariam…

Vejo agora essas sombrias reflexões tisnarem as contradições do atual governo, nos pontos seguintes:

1-            O desastre ambiental provocado reiteradamente, e sem sombra de arrependimento, pelo teimoso Ministro do Meio Ambiente “será isso mesmo o que ele é, teimoso?”

Uma querida amiga de décadas, ambientalista doutorada por Harvard, também minha colega quando trabalhamos juntos na sede do BID em Washington entre 1963-64, duvida dessa irrefreável teimosia atribuída ao Ministro, e o fez ontem pelo telefone.

Recordo que ambos éramos orientados no Banco pelo diretor Evaldo Correia Lima, pai do hoje acadêmico Antônio Cícero.

Minha colega de sala era apaixonada pelo Rio. E quase sempre me instava a lhe repetir gírias de uso comum  pela cidade. Que ela anotava com unção em pequeno caderno forrado de veludo vermelho, cujo título eu considerava mais uma excentricidade de intelectual com pouco a fazer: “Idiomatic Carioca Language”. Elacontinua a me telefonar vez por outra, porque ama o   Brasil de verdade.

Há dias, me disparou pergunta fulminante – “mas quem é mesmo esse Ministro que se diz do meio ambiente?” – “macacos me mordam, mas ele até parece o Benedito- gíria de época”. Que fúria teimosa esse funcionário devota para destruir o que o Brasil tem de mais apreciável, ou tinha, que é a luxuriante diversidade de seu meio ambiente, que nós dois estudamos juntos no BID há tantas décadas.

A ligação foi encerrada com frase nostálgica – a cada semana procuro nos jornais a notícia de que Bolsonaro “lhe dê o boné- gíria de época”, para recuperar seu nome que não anda em alta por aqui.

E aduzi – “esse ato de gestão política seria tão conveniente, que Bolsonaro poderia aproveitar a machadinha (e, atenção, xô xô a moto serra!) e também “cortar o mal pela raiz” de um outro entrave a espantar o Brasil aos olhos do mundo, o inacreditável Chanceler. Ambos só diminuem o Presidente do seu País, nada, nadinha lhe acrescentando de positivo em troca.

Até por isso, faço abaixo breve perfil de ao menos dois contrassensos, diria melhor, duas insanidades desse Antiministro do Meio Ambiente, como lhe chamou há dias o colunista Bernardo Mello Franco. Pois bem. Toda a consciência viva da nação imaginou que depois da fatídica frase proferida na reunião de 11 de abril “aproveitemos a pandemia para ir passando a boiada sobre o meio ambiente”, o Ministro se calasse para sempre. Ledo engano. Nesta semana duas notícias alarmantes desabrocharam de seu coração intimorato.

A primeira, e gravíssima, ocorreria no Plenário semidestruído do Conselho Nacional do Meio Ambiente, agora manipulado pelo Governo, ao demitir quase 2/3 de ambientalistas de verdade, mantendo apenas 1/3 de funcionários que dizem amém aos caprichos especulatórios do Ministro. O CONAMA acabou de revogar normas sedimentadas que protegiam manguezais, restingas e reservatório de água.

O comentário mais indignado, minutos depois da tragédia consumada, veio da representante do Ministério Público Federal, Fátima Borghi, que tudo resumiu na frase – “foi um descalabro”. O descalabro já apontava dois beneficiários certos, a indústria hoteleira e, atentem, a nunca ausente especulação imobiliária, que pressionaram nosso Presidente desde a campanha para construir condomínios milionários e resorts em áreas já protegidas. Fácil assim, pois não? Essa seria a primeira e escandalizada reclamação da amiga ambientalista do BID acompanhada pela frase-refrão – “mas será o Benedito?” que ressoaria como grito de horror por todo País civilizado, e mais que nunca desprotegido. Essa invocação à  antiga (e  deliciosa,  segundo  Houaiss) gíria carioca se torna ainda mais agônica com a continuação do arder no Pantanal e na Amazônia, a partir de milhares de focos de devastação. O que, sabemos todos, nunca teria ocorrido em tal nível. E por quê? Dizer que só Deus explica será mentira, já que satélites monitoram toda região com lentes poderosas metro a metro. Aliás, registro minha comoção ao ver pela TV uma dezena de onças no Pantanal salvas do fogo. As patas queimadas, enroladas em pano branco, até pareciam botinhas surreais. De chorar… Ou melhor, de ranger os dentes de puro desconsolo.

E o que faz, quando esbraveja e se vê chorar o Antiministro? (atenção, eu disse Antiministro e não Anticristo embora a tentação de aproximação seja muito forte).

Esta tentativa de pulverizar mais um bioma não é a primeira muito menos a última do tenaz destruidor do meio ambiente, caso não seja demitido. Em abril deste ano ele anistiou (por quê?) desmatadores ilegais da Mata Atlântica – outro bioma atacado para nada, demitindo (por quê?) dirigentes do IBAMA que lutavam com risco de vida contra a mineração ilegal em terras indígenas (por quê?).

O de espantar é que a justiça poderia “lhe dar um chega pra lá” (outra idiomatic expression de uso pela minha amiga do BID).

Vale informar, como Mello Franco apurou, que uma ação pública para repor o  CONAMA em sua formação original continuava parada até anteontem na mesa da Ministra Rosa Weber.

Nem tudo é desolação. As pessoas por vezes parecem acordar das tantas pedradas assacadas contra nosso desprotegido País. O Ministério Público teria pedido semana passada que o Ministro fosse afastado do cargo. Os Procuradores e todos sabemos dos riscos com ele à solta.

Termino esses amargores com a denúncia recentíssima feita pelo colunista José Casado sobre o afundamento de quatro bairros em Maceió provocados pelo desmoronamento dos poços de sal-gema perfurados abaixo do solo, e agora abandonados frente à Lagoa de Mundaú pela Braskem – Petrobrás, por conta da mineração criminosa que já coloca em risco 60 mil moradores.

  E     reitero aqui   a sabedoria de Schiller – “breve é a loucura, longo será o arrependimento…” Que cabe como uma luva a   volta da pandemia em países como Itália, Reino Unido, etc., que retomaram o confinamento.

Parece o Benedito, e é…

Ricardo Cravo Albin

http://institutocravoalbin.com.br/

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PORTA DOS FUNDOS

O Blog de Hildegard Angel transcreve o oportuno texto “PORTA DOS FUNDOS”, do escritor Frei Betto

Por Frei Betto

       Ao me deparar com o noticiário, pergunto se a humanidade retrocedeu. Ao assistir ao debate Trump X Biden cheguei à conclusão de que o destino do mundo está, hoje, entregue majoritariamente a gente irresponsável, que não tem o menor pudor de enfatizar que o seu principal compromisso é com o sistema financeiro, ainda que isso se traduza em fome, mortes e devastação ambiental.

       Biden me parece menos ruim do que Trump. Há décadas não me iludo com o caráter dos ocupantes da Casa Branca. Kennedy, tão proclamado como democrata, bom rapaz e católico, era um arrivista. No livro “O lado negro de Camelot”, Seymour M. Hersh conta que, em 1960, o pai de Kennedy se reuniu com o líder mafioso Sam Giancana, a quem prometeu que seu filho, uma vez presidente, faria vista grossa para a máfia caso esta canalizasse dinheiro para a campanha eleitoral. Esse acordo, diz Hersh, favoreceu os votos decisivos em Illinois.

       Ao assumir a presidência, em 1961, o número de assessores estadunidenses no Vietnam não passava de algumas centenas, que Kennedy logo multiplicou para 16 mil. Pouco antes da invasão de Cuba por tropas mercenárias monitoradas pela CIA, no mesmo ano, Kennedy aprovou um plano para assassinar Fidel Castro. E quando a invasão ocorreu, o apoio aéreo prometido por ele aos exilados anticastristas, crucial para o sucesso do desembarque na Baía dos Porcos, foi cancelado. Hersh afirma que a decisão do presidente representou para os mercenários “uma sentença de morte”.

Obama, que recebeu imerecidamente o Nobel da Paz (2009), foi o primeiro presidente dos EUA a governar por oito anos sem que o país estivesse um único dia sem envolvimento em guerras. Coube a ele dar prosseguimento às agressões ao Iraque e Afeganistão e iniciar os conflitos com Síria, Líbia, Somália, Paquistão e Iêmen.

       Apesar disso, os grandes veículos da mídia ocidental, quando detinham a hegemonia da narrativa, maquiaram as imagens de Kennedy e Obama como “gente boa”. Isso acabou. Porque agora as redes digitais quebraram aquela hegemonia e, de alguma maneira, democratizaram a informação (e também a desinformação) ao abrir espaço à versão das vítimas.

       Isso é desesperador para os donos do poder, porque permite a todos ver que “o rei está nu”. Agora que os protocolos são rompidos, sabemos todos que parcela considerável da população mundial está em mãos de irresponsáveis e imaturos, como Trump (EUA), Bolsonaro (Brasil), Erdogan (Turquia), Duterte (Filipinas), Orbán (Hungria), Modi (Índia) e Morawieck (Polônia).

       Esse populismo sem nenhum apreço pela verdade e pelos fatos não é propriamente fruto das redes digitais, e sim de uma cultura forjada na convicção de que o capital privado é a prioridade absoluta. Portanto, os valores éticos servem apenas para adornar a retórica.

       Esse descaramento lembra uma família de corruptos que, dotada de modos requintados, recebe convidados para um jantar de gala. Estes miram a casa-mundo apenas pela impressão causada pelo viçoso jardim e a luxuosa sala de visitas. Mas, agora, graças às redes digitais, há convidados que também ingressam pela porta dos fundos, onde o lixo se acumula. E, no fim da noite, surpreendem o anfitrião agredindo a mulher; a faxineira obrigada a limpar o vômito dos bêbados; os seguranças da mansão jantando a quentinha trazida pela empresa para a qual trabalham, embora tenham sobrado faisões e lagostas nas travessas de prata.

       É esse mundo escancarado pela porta dos fundos que nos faz assistir, indignados, dois homens que disputam o poder do mais poderoso império de todos os tempos – os EUA – trocando disparates como dois garotos que, no recreio da escola, discutem aos berros qual de suas famílias ostenta o carro mais possante.

       As redes digitais funcionam como lupas. E ao nos aproximar dessas figuras histriônicas, confirmam o que canta Caetano Veloso em “Vaca profana” – “de perto ninguém é normal”. E, infelizmente, esses líderes jamais dão ouvidos aos versos de Billy Blanco em “A banca do distinto”: “Não fala com pobre, / não dá mão a preto / não carrega embrulho. / Pra que tanta pose, doutor? / Pra que esse orgulho? (…) / A vaidade é assim, / põe o tonto no alto / e retira a escada, / mas fica por perto esperando sentada / mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão”.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Site e livraria virtual: www.freibetto.org

TROPA NÃO É A NAÇÃO

O Blog recomenda a leitura do texto “Tropa não é a Nação”, do ex-ministro Roberto Amaral, transcrito abaixo, publicado em sua carta aberta PENSAR BRASIL

Por *Roberto Amaral

“Vou consultar a Câmara; a tropa não é a nação. A tropa é parte da nação”.
          – D. Pedro I, 1822

     A frase de D. Pedro I que nos serve de epígrafe  foi registrada por José Honório Rodrigues (História combatente, Nova Fronteira. p. 176) como a resposta do nosso primeiro imperador ao general Avilez, comandante das tropas portuguesas, na independência, “quando este lhe fez exigências descabidas”. A citação enseja ao historiador a pergunta que permanece solta no ar e que ainda se fazem os brasileiros:
“E como pode esta parte tomar conta da nação, tutelar seu povo, que detém a soberania nacional e impor-lhe o que quer? O mal que esta ação representou historicamente precisa urgentemente ser reparado, voltando o exército às suas funções constitucionais normais”
O autor de Reforma e conciliação no Brasil escreve em março de 1979, quando o generalíssimo Ernesto Geisel transmitia as rédeas da ditadura ao general João Baptista Figueiredo, o último (e certamente o mais desastrado de todos) presidente do longo mandarinato militar. Passados 41 anos, a primeira inclinação do analista de hoje é supor que estamos diante de uma história congelada, pois a realidade se oferece como  fotografia do passado: a parte segue tomando conta da nação. Aqui se dá fenômeno curioso: as forças armadas não apenas se concebem anteriores à nação, mas se julgam mesmo autoras e criadoras da nação, e assim, com todos os direitos e poderes para ditar os direitos, os poderes e os valores da nação. E puni-la nos casos de desobediência. Elas se julgam acima da história, pois pretendem geri-la; alçam-se acima da república, porque a proclamaram, acima da ordem constitucional que não se pejam em fraturar; pousam mesmo acima da soberania popular, pois seu poder derivaria de si mesmas. Do inquestionável argumento da espada. Os militares não são, assim, uma classe de servidores da nação; querem ser mais que um dos poderes da república, o primo inter pares, o único livre de qualquer controle. Atribuem-se um poder moderador como justificativa da intervenção política, e para isso não se consideram célula do Estado. Como se os militares, como corporação, estivessem  fora das relações políticas e dos interesses econômicos por elas representados, senão em seu núcleo.
Esse poder moderador é a justificativa para a intervenção política e ruptura da ordem constitucional sempre que o dissenso ameaça os interesses da classe dominante, e é posto em ação principalmente quando o conflito opõe grupos sociais,  ameaçando a ordem burguesa. Em ambas as hipóteses seu papel é o de proteção do  bloco hegemônico. Assim, por exemplo, o golpe de 1964, e a ditadura que se segue, instrumentos erguidos contra a possibilidade de avanços sociais.
Em nome da defesa da ordem, sempre a serviço da fração dominante, as forças armadas se atribuem o dever de impedir a emergência do novo.
A ditadura da parte sobre o conjunto vem de longa data, acompanha mesmo a história republicana, com momentos de maior ou menor incidência. Não se trata, aqui,  de discutir os inexistentes compromissos da farda com a democracia – está nos livros de História a sequência de insurreições, golpes de Estado e ditaduras -, porque o cerne da questão radica nessa auto-concepção dos militares como pais da pátria, para eles incapaz de alcançar a maioridade e por isso mesmo necessitada de  ser mantida sob as rédeas curtas da tutela.
Os militares de hoje são a guarda pretoriana de um governo que conspira diuturnamente contra o país e seu povo, destruindo a economia como um todo e a empresa nacional de forma particular, destruindo a indústria em favor do monopólio financeiro, asfixiando a universidade, desconstituindo as bases da educação, da ciência e da tecnologia, devastando o meio ambiente. Transformando um país que já desempenhou o papel de sujeito na política internacional em moleque de recados dos interesses da agonizante administração Donald Trump, aprofundando o caráter de país politicamente reflexo e economicamente dependente, regressando à primeira metade do      século passado como país agroexportador.
Os militares, que no passado estiveram associados ao projeto nacional desenvolvimentista  levado a cabo pela revolução de 30, que se associaram à defesa do monopólio estatal do petróleo e da construção da Petrobras, são hoje o sustentáculo de um governo que desmonta a infraestrutura nacional estratégica, anula o papel do BNDES como agente de desenvolvimento, entrega às multinacionais os recursos do pré-sal e renuncia ao dever de ter uma política espacial, doando aos EUA a Base de Alcântara – sonho de brasileiros há mais de meio século.
Antes, ao tempo da ditadura escancarada, os militares, os homens de farda estiveram atrelados à dinâmica da guerra fria, pondo-se a serviço dos EUA contra nossos interesses; para fazer face à falsa ameaça da União Soviética, elegeram como teatro de ação a guerra interna, combatendo como  adversário de vida e de morte o honrado e bravo  brasileiro que desafiava a ditadura e defendia a democracia. A ação se foi, mas o discurso se mantém. Foi-se a “ameaça” da URSS,  ficou ficou a doutrina da Escola Superior de Guerra, ainda presa à guerra fria. O mesmo anticomunismo, mais farsesco do que nunca, ainda mais anacrônico. Naqueles anos os militares, o exército à frente, se puseram  a serviço de estado burocrático-autoritário, instrumento de modernização capitalista, comandada a partir do centro do mundo capitalista. Desta feita, sustentam um programa neoliberal que revoga todo projeto de desenvolvimento, desde aquele que entre 1930 e 1980 assegurou ao Brasil altos índices de crescimento e transformou o país em  exportador de manufaturados. O estranho é que os militares de hoje repudiem essa política de cunho nacionalista e desenvolvimentista, da qual foram corresponsáveis, como coautores da revolução de 30 e da ditadura do Estado novo, que vai modernizar o Estado e criar as condições infraestruturais para a industrialização, hoje em declínio.
As forças armadas, que chegaram a representar a modernidade, fazem-se sujeito da estagnação, e, por via de consequência, do atraso. Como ser social se desapartam  da sociedade, constroem uma história própria movida por visões próprias e interesses próprios. Formado à parte, vivendo em bolhas, preso a relações endogâmicas, o militar brasileiro constrói sua própria tábua de valores e, a partir dela, passa a ver o mundo dos “lá de fora”. A pretensa origem dos militares brasileiros na classe média, que deveria orientar seus compromissos ideológicos, é uma miragem, pois acima de sua origem de classe, as forças armadas, como observa Eliezer R. de Oliveira,  “definem o campo da ação política dos seus interesses dentro do Estado independentemente de terem vindo da classe média ou de serem filhos de gente rica ou de gente pobre” (Inteligência brasileira. Editora Brasiliense, p 288), e isto é mais do que esprit de corps, pois leva o militar brasileiro, seguidamente, a intervir contra seus supostos interesses de classe, pois simplesmente os ignora.  É mais fácil um oficial brasileiro identificar-se com um colega do corpo de marines dos EUA do que com o pequeno proprietário ou agricultor de sua terra de origem. Sobre qualquer leitura da realidade, o militar é um produto da formação política que recebe nos quartéis e na academia, onde são condicionados a pura e simplesmente serem anticomunistas, e comunismo é tudo o que represente ameaça à ordem, como o progresso social ou a emergência política das massas. Nos quadros da formação de hoje, são inimagináveis movimentos militares como o “tenentismo” (ou a Coluna Prestes), mesmo uma ação política como aquela exercida pelo Clube Militar nos movimentos de defesa nacional e particularmente na defesa da industrialização, ou da Petrobras. Figuras como Horta Barbosa e Estilac Leal não podem mais ser produzidas. Muito menos intelectuais como Nelson Werneck Sodré.
Se podemos registrar, nos anos 50 do século passado, a emergência politicamente ativa de um pensamento nacional-desenvolvimentista, de compromissos legalistas (que muitos identificaram como adesão a teses democráticas), é igualmente fora de dúvida que, a partir de então, com o fim da segunda guerra mundial, com o trabalho que passa a ser desenvolvido pela Escola Superior de Guerra, e com a Doutrina da Segurança Nacional,  são criados instrumentos que visavam a impedir a contaminação com qualquer pensamento social, qualquer leiva de pensamento esquerdista. A democracia se exercia no combate ao espantalho comunista, e quanto mais “democrata” mais anticomunista deveria ser o oficial. O legalismo passou a depender desta contingência.
As mudanças ideológicas que se operam na formação da oficialidade brasileira aguardam  uma discussão profunda que reclama a participação da universidade, dos partidos e do congresso.
A caserna se considera a fôrma na qual a nação toma forma; essa distorção nos perseguirá ainda por muito tempo, porque ainda estamos longe de uma correlação de forças que habilite a nação dizer às suas forças armadas o papel que lhes compete na ordem democrática. Até lá, qualquer avanço social será uma quimera.

Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia

MANIFESTO DE JURISTAS ESPANHOIS AO STF PELO RÁPIDO JULGAMENTO DE SERGIO MORO

Juristas, políticos, ativistas sociais, intelectuais, sindicalistas, pessoas públicas e grupos organizados estão assinando este manifesto na Espanha, dirigido ao STF, o Supremo Tribunal Federal.

Desde dezembro de 2018, o Supremo Tribunal Federal tramita uma denúncia de defesa do ex-presidente Lula da Silva contra o ex-juiz Sergio Moro, sob suspeita de parcialidade; de ter sido interessado na condenação do ex-presidente (a 9 anos e 6 meses de prisão no caso de reforma de apartamento triplex, no Guarujá, litoral paulista). Pena que foi aumentada para 12 anos e 1 mês, dos quais o ex-presidente Lula já cumpriu 1 ano e 7 meses.

A defesa de Lula é urgente para que este julgamento seja realizado, já que o maior dos magistrados do Supremo Tribunal Federal, Reitor Celso de Mello, em breve completará 75 anos e, portanto, deve se aposentar automaticamente em 1º de novembro. No entanto, por razões médicas, ele antecipou sua aposentadoria para o próximo dia 13 de outubro, e outro magistrado para preencher a vaga deve ser nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro.

O reitor é um dos cinco magistrados que devem julgar o caso, ao lado de Carmen Lúcia, Edson Fachhin, que já votaram contra a suspeita, e Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski que ainda não votaram, mas já indicaram que votarão “sim” , que Moro está sob suspeita de parcialidade.

O reitor Celso de Mello não indicou como votará, mas seu voto é considerado desempate, e temos a convicção de que o mais excelente administrador não vai querer ficar para a história com essa dívida para com a democracia brasileira.

Nesse julgamento, os magistrados integrantes do tribunal têm em mãos apurar que o ex-juiz Sergio Moro está sob suspeita de ter cometido inúmeros atos arbitrários, infringindo as regras de imparcialidade para condenar o ex-presidente Lula sem provas na área da operação Lava Jato. beneficiando Jair Bolsonaro e aderindo ao cargo de Ministro da Justiça, com a promessa de ser magistrado do STF, quando o reitor Magistrado Celso de Mello se aposentou.

Sabe-se que a relação entre o ex-juiz Sergio Moro e o atual presidente do Brasil se deteriorou, porém isso não altera as circunstâncias de parcialidade da acusação do ex-juiz Moro.

Se for o caso, a decisão anularia a sentença do ex-juiz Moro sobre o caso do apartamento triplex. Além de outras decisões tomadas em outras ações judiciais, que também poderão ser invalidadas.

Anunciamos que em junho de 2019, o jornal The Intercept Brasil, do advogado constitucional americano, colunista, blogueiro, escritor e jornalista, Glenn Greenwald, (que recebeu inúmeros prêmios por seu trabalho, entre os quais o Prêmio Pulitzer de Serviço Público (2014), e o Prêmio George Polk de 2013, em conjunto com outras mídias), divulgaram informações sobre um acervo de materiais sobre a atuação do grupo especial que compõe o Lava Jato; o que comprovou a existência de pooling entre o então juiz e os promotores e, portanto, a não imparcialidade do desembargador Sérgio Moro nas decisões dos processos relativos ao ex-presidente Lula.

Para agravar a situação, o Órgão Público revelou, há poucas semanas, a existência de indícios de que Moro e o grupo especial que investigou e julgou o ex-presidente Lula mantiveram contatos repetidos com o FBI (Federal Bureau of Investigation), a Polícia Federal dos Estados Unidos, e que seus agentes atuaram no caso Lava Jato.

Fatos que mostram que o então juiz Sérgio Moro nunca agiu com justiça e com a imparcialidade exigida do cargo, mas que tudo fazia parte de seu projeto político. Esperamos que o STF possa agora julgar a parcialidade do ex-desembargador Sérgio Moro nos julgamentos do ex-presidente Lula, para garantir um julgamento justo.

Chamamos a atenção da opinião pública para o cenário desses julgamentos e buscamos formas de colocar o assunto no noticiário mundial para que essa votação no STF seja o mais breve possível.

Por esse motivo, solicitamos que em defesa da justiça do ex-presidente Lula assine o manifesto e, se possível, faça um breve comentário sobre o fato de Moro estar possivelmente sob suspeita como juiz.
Pretendemos colher comentários de personalidades ligadas ao mundo da justiça ou que acompanham os acontecimentos desses julgamentos no Brasil.

Mais do que a assinatura de um manifesto, o que queremos é conseguir uma série de respostas breves em forma de enquete, sendo a instigante questão de suas breves declarações: Por que você acha necessário, que quanto mais cedo o fato daquele ex-juiz Sergio Moro você está sob suspeita de não ter sido imparcial?

Para nós, ativistas brasileiros que moramos na Europa, a sentença proferida pelo ex-juiz Sérgio Moro na ação movida pelo Ministério Público Federal contra Lula deve ser considerada nula diante das evidências de que o juiz está sob suspeita de parcialidade, e “Sem Lula Livre não há democracia no Brasil ”.

Já assinaram:

– Baltazar Garzón Real
Juiz, ex-ministro do Tribunal de Justiça, político e professor universitário.
Doutor Honoris causa por mais de vinte Universidades em diferentes países.

– Aitor Martínez Jiménez
Advogado, politólogo, conferencista e escritor. Doutor internacional em Diteito pela UAM e Europeu em Ciências Criminais pela Université Paris Nanterre.

– Enrique Santiago Romero
Advogado e político, integrante do Escritório da “Asociación Internacional de Juristas Demócratas” e deputado de Unidas Podemos por Madrid.

– Maria das Graças Carvalho Dantas
Advogada, ativista social e deputada do Congresso Espanhol.
Primeira brasileira eleita deputada na Espanha.

– Ildefonso Gómez Martínez
Advogado, ativista social, político e porta-voz da “Plataforma contra la Impunidad del Franquismo”.

– Louerdes Lucía Aguirre
Advogada, vice-coordenadora de ATTAC Madrid e cofundadora de ATTAC Espanha.

– Sergio Camasa Perez
Advogado e ativista político.

– Giovanna Erika Venegas Benavides
Advogada e doutora em América Latina contemporânea.

– Antón Gómez-Reino Varela
Diputado de las Cortes Generales por La Coruña.

– Manuel Pineda
Ativista em prol da Palestina e deputado do Parlamento Europeu por Unidas Podemos.

– Sira Abed Rego
Deputada do Parlamento Europeu de Unidas Podemos.

-Gloria Elizo Serrano
Deputada de Podemos, vice-presidenta terceira do Congresso Espanhol.

– Enrique Olmo
Sociólogo com amplo histórico social e político. Presidente da Fundación Andreu Nin e colaborador habitual de diversos meios de comunicación. Membro do PSOE.

– Francisco Pérez Esteban
Responsável de Política Internacional de Izquierda Unida.

– Manuela Bergerot
Coporta-voz de Más Madrid

– Araceli Escudero Berruezo
Jornalista, ativista social e responsável da “Área de Paz y Solidaridad de IU”.

– Margarita Guerrero Calderón
Ativista política e presidenta do “Movimiento Revolucionario Europa”.

– Babacar Balde
Presidente da Federación de Asociaciones de África Negra de Sabadell y Catalunya.

– Mohamed Merabet
Farmacéutico e ativista social.

– María Remedios Garcia Albert
Secretaria de Relações Internacionais do PCE.

– Carlos Martínez, Economista, Secretário do Partido Socialista Libre Federación.

– Roberto Antunes Vazquez
Analista político em Podemos.

– Javier Couso Permuy
Ex-deputado do Parlamento Europeu.
Artista com trabalhos audiovisuais e militante político.

– Alejandro Capuano Tomey
Jornalista, ativista político e Secretário de Política Internacional do “Partido Socialista Libre Federación”.

– José María García Goday
Médico e ativista político.

– Joaquín Rodero Carretero
Engenheiro aposentado, político e escritor.

– Carmen Ramos Pajares
Aposentada e ativista política.

– Javier García Proenza
Funcionário público e ativista.

– Joaquín Iborra
Presidente da ONG AEPPPA

– Irene Bassanesi Tosi
Ativista feminista

– Mariá de Delás Malet
Jornalista

– Marcos Roitman
Sociólogo, professor universitário, analista político e escritor chileno. Foi exilado durante a ditadura de Pinochet. Reside na Espanha.

– Víctor Francisco Sampedro Blanco
Professor universitário da cadeira de Comunicação Política.

– Alejandro Andreassi Cieri
Professor aposentado da “Universidad Autónoma de Barcelona”.

– Rosa Cañada
Professora e escritora, ativista social em defesa da Educação Pública.

– Alfonso Martinez Jiménez
Profesor.

– Rocío Ordoñez Rivera
Escritora.

– Julio Rodríguez Bueno
Professor e ativista político.

– Manuel Garí Ramos
Economista experto em Trabalho, sindicalista CCOO. Diretor da Área de Meio Ambiente do “Instituto Sindical de Trabajo, Ambiente y Salud” e diretor da “Catedra Extraordinaria ‘Universidad, Empresa, Sindicatos’: Trabajo, Ambiente y Salud” da Universidad Politécnica de Madrid.

– Joseba Echebarria
Sindicalista UGT, responsável de América Latina.

– Dolores Carrascal Prieto
Secretária de Finanças do sindicato CCOO e Secretária de Iniciativas Económicas, Cultura e Serviços.

– Julio Novillo Cicuéndez
Dirigente do sindicato CCOO.

– Roberto Tornamira
Secretário Estadual de UGT para o setor Finananceiro.

– Eduardo Hernández Oñate
Presidente de ASTRADE, UGT Madrid.

– Félix González Prieto
Sindicalista aposentado, UGT Ávila.

– Paraguay Resiste en Madrid
Colectivo Socio-político

– Colectivo Soledad Barret
Colectivo Socio-cultural

– Asociación Paz Ahora
Ajuda às vítimas de conflitos

– Federación de Asociaciones de África Negra de Sabadell y Catalunya

– Plataforma de Solidaridad con los Pueblos del Mediterráneo

-Plataforma contra la Impunidad del Franquismo

– No Somos Delito
Plataforma em defesa da liberdade de informação.

 

COR DE GENTE: A VERDADE ESTÁ NO TOM

Reproduzo hoje aqui o texto oportuno, esclarecedor e demolidor do mineiro Eduardo De Paula, postado em seu Sumidoiro’s Blog, sobre a questão da cor da pele, tão surpreendentemente atual no Brasil e em outras partes do mundo.

 

*Eduardo de Paula

Ninguém nunca foi preto, nem branco, e nunca será uma coisa ou outra. Ademais, nessas questões, as palavras têm sido usadas de maneira enganadora, às vezes servindo para criar preconceitos. Entretanto, um bom conceito vem da teoria das cores, apoiada na história e na etimologia.

Variações tonais da tez humana, segundo amostras retiradas do Sistema de Munsell (1).

Leitoras e leitores: Este que aqui vos escreve, nunca viu uma pessoa preta ou negra, branca, amarela, vermelha, etcétera e tal, muito menos de sangue azul. Na verdade, as conhece em vários tons.

——

      A palavra cor, em sentido amplo, tem servido para definir uma das aparências da natureza. Como parte das imagens, ela entra pelos olhos sob a forma de luz e percorre um caminho que termina no cérebro. Ali, passa por uma elaboração que redunda num conceito individual e o mesmo acontece com o branco e o preto. Cada um vê cada coisa como pode e, algumas vezes, como quer!

Por outro lado, apesar da forma* possuir cores, a matéria em si não as tem. Nesse aspecto, o papel da matéria é tanto refletir, quanto absorver luz e, dessas maneiras, é que faz surgir os mais variados tons ou tonalidades. De fato, cores puras não existem, pois tudo são combinações em três parâmetros, do matiz, do valor e da saturação**. — Toda forma material tem: tamanho, configuração, textura e cor. / ** Matiz: o nome da cor; Valor: o brilho da cor; Saturação: a intensidade da cor. 

Além do mais, o branco e o preto absolutos também não existem. Outro aspecto relevante é o cinza – o mesmo que valor –, que não é cor nem tom, mas tão somente brilho, o qual pode variar do branco ao preto. É uma sucessão que, de maneira mais apropriada, a teoria chama de escala de valores.

É preciso entender que a matéria não traz a cor em si e aqui vai um exemplo. Se alguém for comer u’a maçã num quarto absolutamente escuro, certamente o ambiente não ficará vermelho e nem a fruta será vista. Nesse ambiente, a maçã poderá ser identificada pelo tato, pelo olfato e pelo paladar. Quando for mordida, ruídos serão ouvidos. Desse modo funcionam as coisas no império dos sentidos.

sensação de cor pode ocorrer de duas maneiras, segundo os seguintes roteiros:

1. Luz → Olho → Cérebro. / 2. Luz → Matéria → Olho → Cérebro.

Ao final desse caminho, chegando ao universo multicolorido, o que se forma é sempre um tom, produto da mistura de um matiz com um cinza. Ele pode ser mais ou menos saturado, mais ou menos brilhante. Isso é justamente o que ocorre com cor de gente.

Egípcios em três tons.

À FLOR DA PELE

Em se tratando da cor de gente, é preciso saber que ela difere apenas no que está à mostra por fora. Por dentro, todos são basicamente iguais, da mesma cor. Por isso, em busca de respostas, vamos perguntar aos dicionários:

1. Tez – superfície, especialmente do rosto humano, o mesmo que epiderme.

2. Melanina – proteína responsável pela pigmentação da pele e dos pelos dos mamíferos. Principal responsável por colorir a pele e os pelos dos seres humanos, além de proteger o DNA das células contra a radiação ultravioleta emitida pelo sol.

Chamam atenção os verbetes moreno e trigueiro, definidos no dicionário Aurélio, assim:

Moreno – “… aquele que tem cor trigueira.” | Trigueiro – “Que tem cor de trigo maduro.”

Com a mesma temática, Ari Barroso compôs a Aquarela do Brasil, dando seu recado:

Ô! Esse Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil! Brasil!

O termo trigueiro serve como adjetivo tanto de branco, quanto de pardo. Pelo menos, é o uso constatado em textos de jornais do início do século XIX, arquivados na Biblioteca Nacional. Imagem abaixo:

Jornais do início do século XIX: branco trigueiro e pardo trigueiro.

A origem do termo pardo está no sânscrito pardāku, chegando ao latim como pardus, que é o nome que davam ao leopardo. O pelo de vários tipos de pardus é de tonalidade* apagada e, em alguns animais, amarronzados, noutros mais acinzentados. Aliás, em italiano, leopardo se diz gatopardo. — Sinônimo de tom.

Mais para a frente, surge a palavra pardacento, adjetivo que serve para dizer de aparência parda, apagada. Nos humanos, pardo e pardacento se aplica a miscigenados, ou seja, a junção de pele escura com pele clara. Entretanto, a ignorância tradicional leva a imaginar que o(a) descendente perdeu a cor. Não! É exatamente o contrário, adquiriu um tom mais colorido.

Com o auxílio das duas palavras, pode-se dizer: “A cor desse tecido é pardacenta, bem apagada.” “Vem chuva, o céu está coberto de nuvens pardacentas, é hora de comer um frango ao molho pardo.” “À noite, todos os gatos são pardos.” 

O famoso português, Antero de Quental, escreveu um poema intitulado Visão, falando do pardacento, assim:

Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.

Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto n’um nimbo pardacento
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços…

E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,

Soluço de ódio e raiva impenitentes…
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o mundo!

Outro expoente da arte literária, o brasileiro Machado de Assis, que era pardo, também deu seus recados sobre o tema, como este:

“Akáki Akákievitch não tinha a mínima preocupação com o vestir: seu uniforme passara de verde a um pardacento esfarinhado.” — Novela “O capote”, 1843.

Escritor Machado de Assis. / Um felino pardo, o mesmo que leopardo. / Um homem pardo.

Os dicionários chamam também atenção para as palavras negro e preto:

” Que se refere a pessoa de etnia negra.” (Michaelis)

” … diz-se de ou do indivíduo de pele muito escura; com significado antigo, diz-se de ou escravo de pele escura.” (Dic. Priberam / Portugal))

Contudo, todas estas conotações são relativamente recentes. Em tempos remotos, havia outra maneira para se referir a pessoas de pele escura, usava-se a palavra etíope*. Ampliando, diziam Etiópia(as) como terra(as) onde habitavam etíopes. — * Derivada do grego αἴθω ὤψ (queimada + face).

Bem mais tarde, em 1572, numa passagem dos Luzíadas(2), Camões falou bem das pessoas de pele escura, assim:

A gente que esta terra possuía,
Posto que todos Etíopes eram,
Mais humana no trato parecia
Que os outros que tão mal nos receberam.
Com bailes e com festas de alegria
Pela praia arenosa a nós vieram,
As mulheres consigo e o manso gado […]
As mulheres, queimadas, vêm em cima
Dos vagarosos bois, ali sentadas, […]

Representações de um líbio, um núbio, um asiático e um egípcio.

A dita palavra vem do grego antigo αἰθίοψ (aithíops) – aíthō = queimado / ṓps = rosto. No latim, se escreve aethiops, que tem servido para dar nome científico a vários animais negros – ou quase –, entre eles uma formiga, a Camponotus aethiops. Isso mostra que a palavra vai sempre pulando de galho em galho e ampliando seus significados, para o bem ou para o mal.

Cabe ainda notar que, antes da disseminação da escravatura no mundo ocidental, a cor escura era vista com outros olhos, atenuada em preconceitos. Mas não deixavam de separar os humanos pela cor da pele. Esse foi o entendimento do arqueólogo Heinrich von Minutoli*, depois de ter acesso a vários painéis descritivos do Egito Antigo, encontrados no túmulo do rei Seti I. Trata-se de uma narrativa que recebeu o título de Livro dos Portões(3) * General prussiano (*12.05.1772 / †16.09.1846).

Os indivíduos, então conhecidos pelos egípcios, eram classificados no critério raça/cor, basicamente de acordo com a tez de cada um. Segundo interpretações atuais, seriam os líbios (brancos), os núbios (negros), os asiáticos (amarelos) e os egípcios (pardos).

CORES OFICIAIS

No Brasil, frequentemente, os conceitos de etnia e raça estão misturados e confundidos. Há quem diga que raça englobaria um conjunto de características do próprio organismo, como a cor da pele. Por sua vez, etnia incluiria fatores culturais, como a nacionalidade, afiliação tribal, religião, língua e as tradições de um determinado grupo.

Por outro lado, o empenho do estado em separar pela cor começou com o Censo Geral do Império, em 1872 – o primeiro do país – e permanece nos dias atuais. Recentemente, através do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, andam insistindo em fazer pesquisas sobre cor ou raça. Porém, de modo arbitrário, reduzida a quatro opções, pretaparda, indígena ou amarela, acrescentando também etnia e língua dos indígenas.

Porém, vale lembrar, o pesquisador Craig Venter(4), pioneiro no sequenciamento do DNA, afirmou em junho de 2000: “O conceito de raça, não possui base genética, nem científica“. Durma quem puder, com um barulho desses!

Frontispício de Fábulas de Esopo (Fabulae Aesopi) e ilustração de “Lavar o etíope”.

A COR E A DOR DA ALMA

Para ilustrar mais o tema, chega-se até Esopo, que seria etíope(6) e de pele escura. Com o simbolismo da fábula O corvo e o Cisne, ele aponta uma sequela advinda do preconceito, o complexo de inferioridade. Assim fala:

Depois de ver o cisne, o corvo ficou com inveja de sua cor, imaginando que era devido às águas em que se banhava. Então, o corvo muda sua rotina e passa o tempo todo percorrendo rios e lagos. Porém, em vão se esfregou e não mudou de cor. E assim foi indo, até que a fome o destruiu. / MoralNossa natureza não se altera só pela mudança de comportamento.

Contudo, passado muito tempo, a fábula foi adaptada de maneira perversa, levando o título de como Lavar o etíope. Pode ser lida numa publicação (vide ilustração cima) de 1727,  que cita como fonte o escritor grego Homero. Dessa feita, o corvo se transfigura num etíope, melhor dizendo, um homem escuro que pretende ficar claro. Também o provérbio é reescrito, como “Tentar lavar um etíope é trabalhar em vão.”

Corrobora essa ideia, das variações tonais, o fato científico de que elas são consequência da radiação solar. Basta ver o tom bronzeado, ou avermelhado, que alguns adquirem numa temporada de praia. Nesses casos, muda o tom mas não muda a genética, nem define a tal de raça.

— E agora, minha gente, em meio a essa parafernália colorística, concorda que a verdade está no tom?

Por Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

——

(1) MUNSELL, Albert Henry – (*Boston, Massachusetts, 06.01.1858 / Brookline, Massachusetts, †28.06.1918) Norte-americano, inventor de um sistema tridimensional das cores. As obras mais importantes são “A Color Notation” (1905) e o “Atlas of the Munsell Color System” (1915). Foi também pintor de paisagens, marinhas e retratos.

(2) OS LUZÍADAS – Obra de poesia épica de Luís Vaz de Camões (Lisboa[?]; nascimento e morte: *c.1524 / Lisboa, †10.06.1579 ou 1580. Publicada pela primeira vez em 1572, no período literário do Renascimento, três anos após o regresso do autor do Oriente.

(3) LIVRO DOS PORTÕES – Título dado por Gaston Camille Charles Maspero (Paris, *24.06.1846 / Paris, †30.06.1916). Egiptólogo, membro do Collège de France, membro da Academia de Belas-Artes e comendador da Legião de Honra.

(4) VENTER, John Craig – bioquímico e empresário americano, conhecido por trabalhos pioneiros no sequenciamento do genoma humano e por seu papel na criação de uma forma de vida artificial. Em junho de 2000, numa cerimônia na Casa Branca (USA), pronunciou a frase: “O conceito de raça, não possui base genética, nem científica“.

(6) ESOPO – (Nessebar, *620 a.C. / Delfos, †564 a.C.) Escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas fábulas populares.

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01/09/2020

CASCAVEL & CIA.

Filed under: Uncategorized — sumidoiro @ 9:09 am
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♦ Cuidado com a catacrese!

Encantados com um barrete* vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro, mais umas manilhas e um punhado de cascavéis, com facilidade os índios entregaram o Brasil aos portugueses. O preço que pagaram por Pindorama, foi uma verdadeira pechincha. Está na carta ao rei d. Manuel, anunciando a “descoberta”(1) da terra que, daí a pouco, foi renomeada como Vera Cruz. À primeira vista, tudo pode parecer inusitado, mas é pura verdade. — O mesmo que capuz.

Leitura por Caminha, para Cabral, da carta a ser enviada a d. Manuel.

COISAS E PALAVRAS

      Em 9 de março de 1500, Pedro Álvares Cabral partiu de Lisboa para “descobrir” o Brasil. Consumado o feito, no momento do primeiro encontro com os índios, não havia palavra que lhes fosse inteligível. Porém, os estrangeiros recorreram a uma linguagem universal. Sabiam, por experiências anteriores, que ela entrava forte pelos olhos e ouvidos, com sucesso garantido. Vai daí que, de boa-fé, os índios se abalaram com as mensagens dos portugueses. Porém foram enganados, todo mundo sabe! O acontecimento foi narrado pelo escrivão da armada, Pero Vaz de Caminha, em carta ao rei d. Manuel, assim:

“E, na quinta-feira, pela manhã […] seguimos […] diretos à terra […] E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos. […] E o capitão-mor mandou em terra […] a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tão logo ele começou a ir para lá, acudiram pela praia homens, ora dois, ora três, de maneira que, ao chegarem à boca do rio, ali já havia dezoito ou vinte […] Naquele momento, não podia haver fala, nem entendimento de proveito, pois o mar quebra na costa. Somente lhes deu um barrete vermelhoe uma carapuça de linho […] e um sombreiro preto. — * O mesmo capuz colocado no Saci-Pererê, personagem do folclore brasileiro.

Ao sábado*, pela manhã, […] ordenou ao capitão Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fossem em terra […] Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que, com aquele engodo, quase nos queriam dar a mão.” 

DECIFRANDO

cascavel de Cabral é uma pequena esfera oca de metal, com uma ranhura, tendo no seu interior uma peça metálica. Uso delas se faz atreladas aos pulsos, braços, no peito ou nas pernas. Da mesma maneira na cabeça ou pescoço dos cavalos, ou mesmo atados em algum outro animal. Quando sofre impacto, por menor que seja, balança e soa com estridência. Por isso é que um cão decorado com cascavéis é sempre notado. E um gato com cascavéis faz um tremendo estardalhaço! Ou seja, quem apela para esses penduricalhos, de alguma maneira quer chamar atenção.

Vai daí que, com inspiração no soar das esferinhas, foi dado o nome de cascavel à cobra peçonhenta. Seu chocalhar é um alerta e avisa que merece respeito. Quanto à sua ocorrência, abrange territórios que vão do México à Argentina. No Brasil dos índios, uns lhe atribuíram o nome maraká mboya*, outros, mboy sininga**. Espelhando-se na cobra, surgiu também uma variação de significado, o de pessoa de má índole, de gênio ruim, que gosta de fazer maldades. — Maraká = chocalho; mboya = serpente. / Mboy sininga = cobra que vibra.

Manuscrito do El Cid, com a palavra cascaueles. / Estátua de Mynaia (Álvar Fañez).

ANTIGUIDADE

No latim vulgar, a palavra é cascabellus, que significa guizo ou sineta. Porém, a etimologia aponta para origens mais antigas e em outras fontes linguísticas. Na Espanha, comprovam os fatos, o cascavel já circulava antes do ano de 1207. Num manuscrito da época, aparece o termo copiado de um texto antigo e grafado no plural, como cascaueles. Trata-se do Poema del Cid (2), versando sobre os heroísmos do El Cid, o homem que livrou Valência da dominação dos condes de Barcelona. — * Naquela época, a letra U representava tanto os sons do V quanto do U.

Numa passagem do poema, fala-se do nobre Minaya, assim:

“… diro mynaya baymos caualgar […] en buenos caballos a petrales, a cascaueles / E a cuberturas de gendales, escudos a los cuelos / E en las manos lanzas q pendones traen…”

Tradução“… disse Minaya*, vamos cavalgar […] em bons cavalos com peitorais, (e) com cascavéis, escudos no pescoço / e nas mãos lanças que pendões trazem…” — * Mynaia representa o nobre Álvar Fáñez, herói e líder militar, no reinado de Alfonso VI.

Cobra cascavel, cascavéis de metal e chocalho da peçonhenta.

SOBRE A MANILHA

Quanto à manilha, trata-se de uma pulseira ou bracelete, que se usava atada aos pulsos, braços, pernas, etc. Não é uma simples argola, surgem com formas variadas. Algumas, devido à sua preciosidade artesanal e de material, foram usadas como moeda. Verdade é que, muito antes da “descoberta” do Brasil, as manilhas supriam navios portugueses como peças muito importantes. O navegador Duarte Pacheco Pereira, a quem atribuem a chegada ao Brasil antes de Pedro Álvares Cabral, obtinha vantagens a troco de manilhas. Isto se sabe através do Esmeraldo de situ orbis, manuscrito de sua autoria. Quando trata da sua passagem pela costa oeste da África, em 1488, particularmente da Etiópia da Guiné, diz que fez uso das manilhas, assim:

“… Foi encontrado um rio muito grande, que se chama Rio Real […] as gentes desse rio são chamadas de Jos, eles […] são nus e todos comem carne humana e, na boca desse Rio Real […] está uma grande aldeia […] nessa terra há as maiores almadias* todas feitas de um pau que se sabe há em toda Etiópia de Guiné** e, algumas delas, há de tais tamanhos que levam oitenta homens.

E estas […] trazem muitos inhames que aqui são muito bons […] e trazem muitos escravos e vacas, e cabras, e carneiros, e há um carneiro que chamam bozy. E tudo isso vendem por sal aos negros da dita aldeia. E as gentes dos nossos navios compram essas coisas por manilhas de cobre, que são muito estimadas, mais que as de latão*. E, por oito ou dez manilhas, se pode haver um bom escravo…” — * Almadia: embarcação comprida e estreita, talhada em um tronco de árvore. / ** Naquela época, era comum chamar as terras onde viviam negros de Etiópia e os negros de etíopes. / *** Latão: liga de cobre e zinco.

Mais adiante, em 1490, o rei d. João II , com o propósito de comemorar o casamento do seu filho d. Afonso com a princesa d. Isabel, promoveu uma sucessão de festas. O cronista Garcia de Rezende, em 1607, escreveu uma rememoração dos fatos:

” E houve aí u’a muito grande representação de um rei da Guiné, em que vinham três gigantes espantosos, que pareciam vivos, de mais de quarenta palmos cada um, com ricos vestido todos pintados d’ouro, que parecia coisa muito rica.

E, com eles, u’a muito grande e rica mourisca retorta, em que vinham duzentos homens tintos de negro, muito grande bailadores, todos cheios de grossas manilhas pelos braços e pernas douradas, que cuidavam que eram d’ouro, e cheios de cascavéis dourados, e muito bem concertados, coisa muito bem feita…”

Manilhas egípcias.

ENGANAÇÕES

Bem antes de Cabral, e de modo a iludir os nativos, os portugueses usaram e abusaram dos cascavéis, mas também das manilhas e dos barretes vermelhos. Para início de qualquer diálogo, as peças estavam sempre à mão, prontas para convencer mais que as palavras. Nesse sentido, uma lembrança vem de Vasco da Gama, durante sua descoberta do Caminho das Índias. Está no relato da viagem:

Ano de 1497 — “Em 25 dias do […] mês de novembro, um sábado à tarde […] entramos em Angra de São Brás*, onde estivemos por treze dias […] Na sexta-feira seguinte, […] vieram cerca de 90 homens pardos […] eles andavam ao longo da praia, alguns trepados em outeiros**. — * Na região do Cabo da Boa Esperança. / ** Outeiro: pequena elevação.

[…] e, quando os vimos, fomos em terra […] e, […] o Capitão-Mor lhes lançara cascavéis […], e eles os tomaram, e não somente […] os que eram lançados, mas vieram tomá-los das mãos do Capitão-Mor. […] do que ficamos muito maravilhados […]

Noutro momento, no mesmo dia 25 e um pouco mais longe, houve mais um contato com os nativos. Assim consta no Diário:

“E o Capitão-Mor mandou então que os apartassem e que viessem um ou dois deles, e isto por acenos. E àqueles que vieram (vieram à bordo) o Capitão lhes deu cascavéis e barretes vermelhos, e eles nos deram manilhas de marfim que traziam nos braços, porque nessa terra, segundo nos parece, há muitos elefantes e nós achávamos o estrabo (excremento) deles bem em frente da aguada onde vinham beber.

COM EMOÇÃO

Em 1553, tocado pelo evento da Descoberta do Caminho das Índias, Camões repetiu a mesma viagem e, daí, empenhou-se em escrever os Luzíadas(3)Numa passagem, narra a mesma experiência que havia lido no diário de Vasco da Gama, assim:

Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
Contas de cristalino transparente,
Alguns soantes cascavéis pequenos,
Um barrete vermelho, cor contente.
Vi logo, por sinais e por acenos,
Que com isto se alegra grandemente.
Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
Para a povoação que perto tinha.

Poderosas guerreiras ahosi, cobertas de manilhas (foto de 1908).

MEIO DE PAGAMENTO

Na segunda metade do século XV, com o estabelecimento de feitorias de Portugal no oeste da África, surgiu o comércio de escravos. As ofertas vinham de negros que repassavam seus cativos, também negros, para os portugueses. Porém, num certo momento, devido a ganância dos vendedores, houve a interveniência de d. Manuel. Nesse sentido, o rei estabeleceu o seguinte preceito:

Regimento do Trato de São Tomé – 08.02.1519 — “Nós el Rei […] fazemos saber a vós, Álvaro Frade […] que ora encarregaremos de feitor do nosso trato dos escravos da Ilha de São Tomé […] não deem por peça (escravo) mais de quarenta manilhas e daí para baixo, o menos que puder ser…”

Entretanto, daí para a frente, tanta foi a demanda pela manilha que o adereço se vulgarizou, a ponto de tornar-se obrigatório na indumentária de alguns grupos africanos, mais entre as mulheres. Denotava poder, senão delas próprias, pelo menos dos seus maridos ou de quem elas serviam. Considerando a mesma particularidade, durante o século XVII, surgiram as temidas guerreiras ahosi, no reino do Daomé (atual Benin). E como identidade, traziam seus corpos cobertos de manilhas. Treinadas para serem guardiãs do rei, lutaram bravamente durante as incursões coloniais europeias. Alguns ocidentais as tratavam como amazonas(4), visto que  denotavam tremenda valentia.

VARIAÇÕES

Avançando nos significados, ensina o padre Bluteau(5), no seu dicionário:

” Manilha — bracelete ou argola que alguns povos trazem nos braços por adorno […] Huma manilha d’agua, isto é, hum anel […]“.

Neste segundo sentido, corresponde à bitola de um cano e à capacidade condução hídrica. Daí, como desdobramento, foi criado um sistema de medidas que compreende a manilha, o anel e a pena d’água que, em Portugal, prevaleceu até meados do século XIX. Como subdivisão da manilha havia o anel e a pena*. Esta última, correspondendo ao orifício de uma pena de pato**. — * 1 manilha = 16 anéis; 1 anel = 8 penas. / ** Onde não há hidrômetros, a pena d’água ainda está em uso.

Variações da manilha.

Naturalmente, à medida em que a manilha se desdobra em função e forma, ocorre a ampliação da sinonímia. Assim aparecem argolapulseiraanelcolarcoleira, etecétera e tal. São objetos com a serventia de envolver, prender ou abraçar algo – pessoas, bichos e objetos –, que são ditos como cadeados*trancasalgemas*, etc. Com essa vasta conotação, a manilha – em palavra e forma – permanece viva em vários apetrechos de uso corriqueiro. Alguns são mostrados na figura acima. — * Cadeado: tranca que possui uma argola em forma de U. / ** Duas manilhas ligadas a uma corrente compõem um par de algemas.

ANTIGUIDADE

Mais uma vez, no dicionário do padre Bluteau, são esclarecidos alguns pontos, quais sejam:

Bracelete – Ornato que as mulheres costumam trazer ao redor da parte inferior o braço. […] em um manuscrito […] do tempo do imperador Justiniano, se acha fibula de bracile, donde se infere que bracile era bracelete e bracile é corrupção de brachiale*[…] Tito Lívio chama armila. Segundo a etimologia, armila se deriva do latim arma e arma se deriva de armus, ombro. E, devido ao galardão de levarem armas aos ombros, davam os imperadores ou generais de exercito, aos bons soldados, uma insígnia de ouro que chamam armila[…] — Brachiale: braçadeira.

Mas, com o tempo, as insígnias de guerra se fizeram enfeites de vaidade e, com razão, se queixa Tertuliano da vaidade das mulheres, que chegaram a converter em gala feminil os prêmios de valor militar. […] A propósito desta palavra, falando em cães que trazem coleiras, isto é uma figura gramatical que se chama catacrese […]”

De fato, catacrese é um tipo de metáfora que se incorpora no uso comum da língua. Assim sendo, em sentido figurado, manilhas unidas uma às outras formam um tubo condutor, que pode servir para esgotar água, dejetos, e mais seja lá o que for. De outra maneira, o cascavel virou ofídio, barulhento, temido e mortal.

— Agora, com o perdão do bom humor, permita-me um conselho: “Nunca enfie a mão numa manilha sem cautela, lá pode haver uma cascavel adormecida. Cuidado para não despertar a catacrese!”

Pesquisa, texto e arte por *Eduardo de Paula

Revisão: Berta Vianna Palhares Bigarella

*Eduardo De Paula é de Belo Horizonte e reconhecido como um dos artistas plásticos mais importantes de Minas Gerais. Foi professor adjunto da Escola de Belas-Artes da UFMG e um dos fundadores de seu Festival de Inverno da UFMG. Desenhista, ilustrador e designer gráfico, notabilizou-se pela criação de várias identidades gráficas de instituições mineiras. Eduardo de Paula também já trabalhou em diversos órgãos de imprensa, entre eles a Revista Alterosa, o Diário de Minas e o Suplemento Literário do “Minas Gerais”. E para a minha sorte, Eduardo é meu primo-irmão.

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(1) Suspeita-se outros, entre três navegadores, haviam chegado a algum ponto da costa de Pindorama (Brasil), antes de Cabral. As versões apontam para o português Duarte Pacheco, em 1498; e os espanhóis Vicente Pinzón, em janeiro de 1500 – companheiro de Colombo na descoberta da América – e Diego Lepe, em fevereiro de 1500.

(2) Poema del Cid ou Cantar del Mío Cid – Primeira obra da poesia épica espanhola, reunindo as façanhas de Rodrigo Díaz de Vivar, mas é também um ensaio a traduzir o espírito castelhano. Disseminado por menestréis em praças e castelos, o “Cantar”, além de exaltar valores inerentes à honra e à liberdade, oferece u’a amostra dos costumes da época.

(3) Os Lusíadas – Obra de Luís Vaz de Camões – poesia em estilo épico. Provavelmente concluída em 1556 e publicada em 1572, três anos após sua viagem ao Oriente. Tem como tema a descoberta do Caminho das Índias, por Vasco da Gama, e está mesclada com episódios da história de Portugal.

(4) Amazonas – Segundo a mitologia grega, eram mulheres guerreiras. Elas foram descritas por Heródoto, em 450 a.C. / Delas vem, lá no século XVI, a inspiração para o nome do rio Amazonas, talvez fantasiosa. Diziam que um grupo de nativos, liderados por mulheres, teriam atacado a expedição de Francisco de Orellana. Antes disso, o rio era conhecido como Marañón.

(5) BLUTEAU, Rafael – Religioso português. Autor do monumental Vocabulário Português e Latino, que mais tarde António de Morais Silva modernizou e ampliou, dando assim origem ao seu Dicionário da Língua Portuguesa.